segunda-feira, fevereiro 4

Paraíso uterino, perdas, faltas e dialogicidade


Por Lindomar Freitas de Almeida

Um momento central, fundante é a gestação de um filho. Conter o vaso frágil e poderoso da vida só ela pode. A princípio naquele ambiente uterino o bebê constrói sua primeira relação com o mundo e com o primeiro grande Outro, a mãe representação do universo social. A partir dos três meses começa a ouvir os muitos sons internos: pulmões da mãe que inflam e desinflam, o baticum do coração materno e a própria voz da mãe que mergulha gel adentro onde ele dorme, quase sempre. Depois, ainda na barriga, vem as cambalhotas, brincadeiras e interações com a mãe ou pai, caso ele seja presente. As interações vão se construindo entre mãe-bebê, mas, um pai que acompanha é o diferente dialógico fundamental. Ao nascer irá reconhecer os sons das vozes de quem esteve com ele na gestação e sentirá mais confiança num momento tão delicado ao sair de seu habitat aconchegante. Afinal no útero, mesmo nú, não sentirá frio, tampouco calor. Lá não é claro, totalmente escuro também não é. Se há imagem de um paraíso na terra é este, todavia, somente por nove meses. Relação perfeita. União simbiótica salutar que, de outro modo, necessariamente terá que se desfazer. Deixando em cada um de nós a saudade do encontro perfeito. A perda, a falta, o desejo e a busca...

A partir do nascimento seremos 'caçadores da arca perdida' ou perdeu-se um elo da corrente e saímos a procurar... Onde encontrar um substituto? Um substituto não, buscaremos várias formas de substituir esta falta: pessoas, amores, amizades, paixões, bens materiais, poderes, cargos...

Pronto! Inaugura-se o ser-humano como um ainda-não, um devir, um vir-a-ser, um ser de processo, um ser inacabado. Um ser que jamais viverá relação igual aquela com a mãe e nem deve mais ser assim. Relação simbiótica somente a uterina. Agora como ser de busca as relações serão construídas tendo o conflito, a tensão como realidade e o convite para dialogicidade.

terça-feira, janeiro 15

Encapsulamentos do Self


Por Lindomar Freitas de Almeida

Anos passaram-se de uma visita a uma casa esquisita. Na porta de entrada havia uma fotografia de uma boca aberta desnudando os dentes. Adentrando a sala, mais fotos, próteses sobre a mesa enfeitando a moradia e, à medida que, a conversa desenvolvia-se dentes, cáries, céu somente o da boca. Tentava-se mudar o assunto, porém, lá estava o universo oral tomando a cena. Lembro outra visita a um idoso europeu, em cadeira de rodas, sobrevivente das duas grandes guerras. O assunto dominante: bombas, armas, fome e banhos com meio litro d’água. Tentativas feitas para mudar o tema da conversa em vão. Outras visitas por aí poderia citar, mas, o objetivo aqui é ilustrar as fixações humanas, o encapsulamento do self.

Algumas situações fortes aprisionam o self naquele instante passado ficando difícil experimentar num grau prazeroso o presente. Outras vezes não há um evento forte, mas, um fazer repetitivo cristalizador. É comum encontrarmos pessoas que vivem em alguma instituição ou trabalham nelas com um repertório vocabular limitado àquela particularidade. Então há pessoas que restringem sua cosmovisão a motores, outros a doenças, outros a moda, plástica, futebol, investimento, leis...e por aí vai. Ora como se pode viver especificando-se, especializando-se, fragmentando-se de uma totalidade ao nosso redor que convida a percepção de suas nuances e matizes?

Alguns se recusam a aprender além de suas especialidades a mergulhar na novidade alvissareira que renova o self. Talvez porque experiências sempre mudam a gente, exigem esforço e desconstroem um tanto daquilo que éramos reconstruindo-nos de um novo jeito. O mergulho na experiência não pode especificar. EX= sair, fora. PERI= todos os lados. ÊNCIA: conhecer. Sair de mim para conhecer todos os lados não é especificar, estreitar.

Logo, um mundo de especialistas pode ser também um mundo de gente limitada, de visões míopes. Pessoas com um conhecimento técnico, mas, que não sabem viver. Há um vácuo abissal entre o conhecimento técnico sistematizado e a sabedoria de viver.

Veremos a cada dia mais selfs encapsulados, fixações e reducionismos nos dias que ainda virão. Cosmovisões baseadas em fundamentalismos científicos, institucionais, religiosos.

De outra maneira, a crise levará muitos ao despertar dos sentidos, a consciência dos atravessamentos que a todo instante nos perpassam, as dimensões de nosso ser, a tecedura de nossas complexidades humanas e a busca por espaços de dialogicidade e de encontro. A paradoxalidade da vida aponta muitas vias: uma delas é a da esperança.

sábado, novembro 10

Um pouco de verdade...??


Por Lindomar Freitas de Almeida

Quem é o dono da verdade, onde está a verdade?
Pode a verdade ser pertencida a algo ou alguém como um passarinho cativo?
Ou estará ela continuamente velando e desvelando-se à maneira heraclitiana?
Capturá-la, instituí-la, pô-la num frasco como fez 'o perfumista', do romancista alemão Patrick Süskind, é um tanto enlouquecer.
Domesticar o indomesticável é a pretensão da soberbia. Como líquido entre os dedos, fica somente uma parte.
Estar desperto, vigilante para captar o Inaudível, o Inominável, o Inaudito no cotidiano é fazer-se simples.
O ego hiperinflacionado não consegue, por isso, deseja TER, apropriar-se de um totem.
Há muitas formas sofisticadas de totens. Eles podem ajudar a acrisolar a busca, a atenção desperta, mas, no geral cristalizam a verdade.

quarta-feira, outubro 3

Natal, Vida, Amor – Renascimento!

por Lindomar F de Almeida

No Natal a vida pulsa e fertiliza as coisas: o pinheiro resistente ao frio simboliza a firmeza, a perseverança; as bolas cada ato de bondade que fazemos, cada virtude nossa – amor, alegria, partilha, caridade...Os arranjos da árvore são algumas de nossas fraquezas durante o ano. Papai Noel este sujeito bondoso é uma alusão a São Nicolau – São Nicolau foi um homem benevolente que presenteava os necessitados às escondidas. Os presentes são um belo ato de doação que no Natal deve ganhar um sentido maior. O Natal é rico em simbologia, rico em “magia” e em significados, as coisas se sacramentam. Nesse tempo, renasce em muitas pessoas o espírito da bondade, da caridade, da partilha, da COMUM-UNIÃO. Renasce externando o amor fraterno que mora em cada um de nós quando damo-nos as mãos: solidarizando-se ainda mais com o esposo, com a esposa, com os filhos, com os pais, com os amigos, com os necessitados... A mentalidade de que somos parte de uma família humana deve renascer neste dia.Natal é aniversário do maior presente doado a humanidade: o AMOR, o AMOR que se fez humano!Ao darmos um presente lembramos Deus ao nos dar seu filho, relembramos a doação integral de Cristo: com a ternura e fragilidade de um menino numa manjedoura ao escândalo da cruz doou-se, fazendo brotar o AMOR.
Deus assim experimenta viver entre nós, revela-se, mostra sua identidade. Desmistifica então aquela imagem de um Deus Juiz, Severo, Policial... Sua face revelou-se no Cristo que às adúlteras não apedrejava, mas falava de perdão e de vida, aos poderosos não bajulava e aos miseráveis não desdenhava, mas vivia no meio deles!A esperança primeira do Natal é que compreendamos nesta noite que precisamos nascer de novo, hoje e todos os dias. Nascemos de novo quando perdoamos quem nos ofendeu, quando defendemos os mais fracos, quando damos comida ao faminto, quando acordamos sereno e tranqüilo pela manhã; quando vamos com alegria ao trabalho, quando ouvimos com atenção ao outro, quando aproximamo-nos mais de Deus pela oração, quando não tememos a ninguém, quando abrimos nossos corações a esperança lembrando que Deus ama seus filhos e pede que seus filhos se amem também.Espera-se do Natal que somente a paz reine! Espera-se do Natal um renascimento em nós mesmos e em Deus. Renascimento, porque Cristo não foi, Ele é e será sempre viva realidade na alma, no coração e na vida de todos.

Eis o sentido do Natal, nascimento de Cristo e o nosso compromisso pessoal de renascer para a vida aproximando-nos mais do Nazareno – que é aproximarmo-nos da beatitude, da caridade, da justiça, da compreensão... No Natal vamos abrir os nossos corações para a PAZ! Mostrar no rosto um largo sorriso, abrir os braços para um abraço, encurtar distâncias... Espantar o medo, as trevas, deixar o amor entrar em nossas vidas, solidarizar-nos com os que nada tem. Neste dia o mundo todo celebra, o espírito humano eleva-se. Fazendo parte desta grande família humana abriremos nossos corações a Paz. NASCEU O AMOR, NASCEU JESUS! Feliz Natal! Feliz Renascimento!

Nota sobre relações e ventos fortes

Por Lindomar F de Almeida

Quando se convive, tendo um objetivo comum, corre-se o risco de buscar a harmonia grupal e se olvidar do conflito. O grupo em nascimento geralmente produz relações meticulosas, formais entre os membros. Há um certo receio misturado com cuidados no estar com o outro. Uma ilusão pode se estabelecer quando se idealiza o grupo por este começo. Doloroso também é quando se usa muito investimento, muita energia psíquica para manter uma estrutura que naturalmente irá revelar-se em suas matizes e individualidades. Como numa busca romântica pela harmonia há membros que esquivam-se do debate. Alguns podem se tornar 'sentimentalóides', melindrosamente frágeis. Confundem o debate como desrespeito. Debate = idéias, argumentos. Desrespeito = atingir a moral, a pessoalidade. Assim quando um debate é iniciado uma mudez é produzida, um esquivamento apartador passa a existir. Muitos descobrem o incomôdo de não saber dizer 'não', tampouco recebê-lo, interpretam as negativas como ruptura, desamor, etc. E isto vale desde as relações afetivas a dois as relações grupais. Desta forma, comportamentos infantis, adolescentices e regressões vão coexistindo nas relações de hoje. Obviamente, estas mesmas relações desconstroem-se quando os primeiros ventos teimam em soprar

Amor este tão cantado amor...

Por Lindomar F de Almeida

Olhando bem o amor tão cantado pelos intérpretes não se trata de amor e a maioria dos versos poéticos não se fala dele. Muitas vezes se fala de um sentimento possessivo, beirando ao doentio. Outras vezes é de tesão que se fala, atração física e/ou sexual. Grande parte confunde-o com a paixão. Neste sentido há muita gente especialista neste tal "amor"... Prosseguindo assim pode ser que se passe pela vida e nunca o experimente. O amor não é abstrato e a paixão concreta, como se costuma pensar. O amor tampouco é cego, ao contrário é lúcido. Na verdade amor nem mesmo é sentimento. Paixão, tesão, atração sexual estes sim estão no 'reino' das emoções/sentimentos. O amor está no 'reino' das virtudes. Pode até ter como coadjutores as emoções e os sentimentos, vários deles, mas, sentimento ele não é. Veja bem, as emoções não precisam de esforço para existirem, sozinhas elas surgem e esquentam o coração de fogo, às vezes um olhar é suficiente. Já o AMOR só acontece se a pessoa fizer esforço, esforço contínuo, diário... portanto uma virtude (virtuos=esforço). O amor acontece quando saímos de nós mesmos, num processo empático, trancende o eu. Portanto, tem muito pouco de egoísmo. A paixão ocorre dentro egocentricamente, o outro não é bem um outro, mas, narcisicamente um espelho de si mesmo. Queremos amar verdadeiramente? Aprendamos a cuidar desapegadamente. O cuidado é a expressão concreta do amor!

Gentileza gera gentileza

Por Lindomar F de Almeida

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu José Datrino, o Profeta Gentileza. Ele saudava as pessoas nas ruas do Rio de Janeiro e escrevia nas colunas dos viadutos para todo mundo ler: "um mundo de paz nascerá através da gentileza entre as pessoas". Como faz falta em nosso dias o seu ressoar por um mundo mais gentil. Acrescentava: sou “amansador dos burros homens da cidade que não tem esclarecimento”.Quem vive em cidades grandes sofre com a falta de gentileza: seja no trânsito embrutecido, na violência barbarizada dos folhetins diários, naquelas violências sutís que se apresentam em filas de supermercado (quando não se dá a vez para quem tem poucas compras a passar no caixa), quando se agride atendentes, não se dá a cadeira no ônibus para alguém mais necessitado, quando o som é aumentado enlouquecidamente certos que é 'a maior curtição', quando se faz birra feito crianças não cedendo. Corações envenenados com estresses, relações mal resolvidas e/ou coleções de relações sem confiança e superficiais acumuladas no decorrer da vida. Hoje mesmo vi uma descortesia de um homem idoso acompanhado de sua esposa, os dois num automóvel novo, fecharam um outro não deixando-o atravessar a rua - virando o rosto como se fechasse as portas da consciência. Anestesiados na vida da cidade não sentem a falta de gentileza. Para compensar a rudeza daquela cena dei uma chance a sensibilidade, cedi minha vez para uma senhora numa fila. Ela olhando-me sorrindo disse: obrigado pela gentileza. Pensei no axioma do simpático Profeta: "gentileza gera gentileza".

Tênues proteções

Por Lindomar Almeida

A vida cotidiana com seus afazeres repetitivos cria uma padronização, um ritmo mental que apega a pessoa a tênues proteções. Desconectam-se de si mesmas sem dar-se conta do padrão rígido seguido. Com o tempo se vêem por aquilo que fazem. O mesmo tempo mostrará dolorosamente que não são somente o seu fazer. Há um ser a cuidar. Não somos simplesmente nossa profissão, nosso cargo, o estatus que ocupamos, a farda, a roupa que nos identifica. Tampouco somos apenas as letrinhas antes de nosso nome (Dr, Pr , Pe, Msc, Prof...). Precisamos das instituições, assim como ela de nós. Há uma dialética relacional entre o indíviduo e a instituição, entre o ser e o fazer. Um tanto lá e um pouco cá. Abrigar-se absolutamente nas cristalizações proporcionadas pelo fazer repetitivo pode ser cômodo e a princípio trazer bem-estar. É certo também que virá a falta de significado e incertezas quanto ao seu estar no mundo. O fazer deve nos apontar ao ser e vice-versa, numa negociação constante. Um barco não vive só no porto, um barco não vive só no mar.

Eugenismo velado

Por Lindomar Almeida

De vez em quando algum figurão representante de boa parte da elite reacionária brasileira, empolgado, solta um velado desejo da volta a eugenia. Para refrescar a memória dos esquecidos eugenia é aquela absurda teoria desenvolvida por Francis Galton no final do século XIX e primeira metade do século XX, seguida à risca por Hitler e seus comandados, que tem por objeto a espécie humana em termos de purezas raciais (segundo a funesta teoria haveria pessoas puras e impuras, superiores e inferiores. Impuros e inferiores seriam descartados). Nesta semana um grande jornal noticiou que um tal presidente de uma multinacional referindo-se ao 'marasmo cívico' do país disse a infeliz frase em público: "Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". A coisa foi feia. Um desrespeito preconceituoso, para avaliar por baixo, a milhões de pessoas daquele lugar e a todo ser humano que pensa e age por um mundo melhor.

O tal cidadão desconhece o poeta Torquato Neto, precursor do movimento cultural Tropicalista; desconhece a infância do poeta neoparnasiano Humberto de Campos e suas geniais obras literárias, o aconselho a ler o seu 'Memórias'; desconhece os ilustres anôninos do estado, talvez porque não fazem parte das luzes midiáticas; desconhece os 80% de florestas nativas preservadas; desconhece o Delta do Parnaíba, o único das Américas; o sítio arqueológico das 'Setes Cidades'; desconhece o trabalho da paleontóloga Niéde Guidon no sítio da Pedra Furada onde seus achados refutam a tese de que não estão nos EUA os vestígios dos primeiros homens da América, mas, no Piauí onde neste sítio arqueológico as pinturas rupestres são consideradas obras primas da humanidade pela UNESCO; talvez também não se interesse em saber que a melhor escola do Brasil, eleita por dois anos consecutivos pelo ENEM é de lá, do Piauí. Caso o interesse seja a maximização do lucro e não as pessoas talvez se interesse na melhor produtividade de soja, mel e provavelmente numa das maiores bacias de petróleo e gás da Nação.
Desta forma, pessoas atrasadísimas pensam. Outras fazem pior mutilam empregadas domésticas com o argumento abrutalhado de que achavam que era uma profissional do sexo; outros queimam indígenas com o mesmo tosco argumento de que pensavam ser um mendigo. Duplos ultrajes a dignidade humana. Filhos da eugenia velada, nutridos por preconceitos sutís ou escancarados, tendo como fonte determinismos biológicos, hoje já superados pela propria genética e seus novos estudos baseados na análise do DNA mitocondrial.

O grave problema é que determinada classe elitista e muitos que desejam parecer que pertencem a ela, fazem um curso superior e passam a ler revistas semanais como fonte de informação ou escutam âncoras de TV como gurus. Repetem os mesmos clichês, como papagaios amestrados. Assim enquanto a 'Complexidade de Edgar Morin' nos convida a discutir a grandeza da Cidadania Planetária, há a pequenez de verdadeiros brucutus pós-modernos pensando em bairrismos, regiões superiores e purismos biológicos e/ ou culturais.

Dimensões do Ser

Por Lindomar F de Almeida

Não é possível neste engatinhar do século XXI pensarmos o processo de realização humana somente porque se alcançou sucesso em um segmento da vida. Há os que se aquecem com suas glórias porque sabem curtir a vida; outros porque venceram no mundo do trabalho; há ainda os que são craques na arte dos relacionamentos amorosos e por aí vai. O ser humano não deve ser visto somente por uma parte isolada. Os ventos sobre estes tipos de pensamentos já nos trouxeram Jan Smuts, Fritjof Capra, Ludwig von Bertalanffy, Edgar Morin, entre outros, cada um em seu campo de pensamento.

Notadamente uma pessoa que busque sua realização pessoal num aspecto de sua vida terá a sensação inicial de sucesso. Mas, com um pouquinho de tempo verá que há muito por fazer. O cuidado conosco mesmos deve ser constante e a construção do que somos merece uma atenção desperta a toda nossa complexidade. Creio que cinco dimensões valem observar:

1- dimensão do trabalho/ estudo: todos precisamos nos sentir úteis, conseguir bens materiais e imateriais, frutos da dignidade de nossos esforços;

2- dimensão do lazer: todos precisamos de ócio, preguiça, prazer, descompromisso com qualquer meta;

3- dimensão dos afetos: todos precisamos perceber que somos queridos, considerados, amados e precisamos querer, considerar e amar outras pessoas; se não tem alguém ao menos um animalzinho, uma plantinha, por enquanto servem;

4- dimensão social: todos precisamos conviver em grupo, em comunidade; lá compartilhamos, questionamos, somos questionados e mudamos;

5- dimensão do transcendente: todos precisamos acreditar em algo maior do que nós mesmos, que transcenda nossa dimensão egóica. Muitos chamam o Inaudito e Inominável de Deus, Olorum, Javé, Alá, Axé...
De outra maneira, não devemos nos fixar em nenhuma dimensão. A segmentação adoece, regride, infantiliza. Por exemplo, congelando-se no lazer (oxidação do ser), no trabalho (automatismos), nos afetos (desequilíbrios emocionais), no social (fragilização da identidade pessoal), no transcendente (fanatismos, fundamentalismos). O convite é vivenciar a circularidade e não a focalização míope. Geralmente quando não estamos bem conosco mesmos há algum exagero em alguma dimensão ou deixamos de vivenciar algumas.

terça-feira, outubro 10

Tempos sombrios...

Por Lindomar F de Almeida

As relações estão frias, a religiosidade em crise nos países do Norte. Edgard Morin e Heidegger já diziam que talvez 'não precisemos somente de tantos conhecimentos no mundo contemporâneo' . É uma grande verdade: a nossa fome atual é de SENTIDO. De outra forma, este fenômeno já está presente entre nós brasileiros.
Não podemos esquecer do capitalismo contemporâneo que na sua fase globalizada propagandeia uma homogeneização de 'valores', um mesmo padrão de vida, o estadunidense. Dessacraliza a pessoa, porque o que lhe interessa é a cabeça, os músculos, a força de trabalho e a produtividade. Não uma pessoa que pensa, uma pessoa que ama, uma pessoa portadora de transcendência. Imagine se todos os países almejassem ter o padrão de vida das famílias abastadas dos EUA? O mundo entraria em colapso, o mundo não se basta com aquele modelo. Aquela utopia extravagante jorrando poluentes na atmosfera, o consumo desenfreado gerador de regressões, adolescentices, infantilidades e corações desérticos. Atualizando: veja o muro da vergonha que será construído para proteger esta frágil utopia. Aldous Huxley já falava disto no seu 'Admirável Mundo Novo'.
O socialismo seria a resposta? Não sei. Só sei que temos que nos engajar em projetos por um mundo mais cooperativo, que nos faça sentir que estamos todos num mesmo barco, numa frágil 'teia da vida', usando a expressão de Capra. Só sei que temos que nos colocar em práticas de renovação espiritual constante para que a alma não seque.

Rato e relações.

Por Lindomar Almeida Renato está desempregado e fica em casa. Jandira sustenta a família nestes meses duros. Renato percebe qu...