Em muitas culturas o pênis é símbolo de poder. Em alguns grupos ele é ostentado, motivo de piadas, contos e lendas. Para muitos homens é uma desgraça quando ele não funciona a contento, na hora ‘H’. Na puberdade e até entre adultos quanto maior o penis proporcionalmente o sujeito se sente macho. E parceiras dadas a não muita reflexão certamente sentia-se/sentem-se atraídas por tal objeto de poder e sedução.
Hoje em dia há até quem prometa exercícios para que o epicentro da sexualidade masculina cresça alguns centímetros. E há quem pague caro por isso. Pois bem, é comum quando nos falta respostas para vazios no Ser encontrar-se compensações deste tipo.
Atualmente alguns objetos adquiriram status semelhante ao do pênis. Um se destaca: os carros. Os machos compram carros compridos, grandes e caros. Assim hiperegoicamente sentem-se vistos, apreciados, sedutores, em suma, mais poderosos. Quando andam pelas estradas e avenidas assumem a postura de ‘donos do pedaço’, competem, ameaçam aqueles carrinhos pequenos, velhos ou baratos (nem vou falar dos pedestres e ciclistas). Assumem posturas hostis e sem gentileza urbana, próprio dos homens das cavernas que provavelmente eram mais homens por causa do tamanho do ‘pinto’. E o pior sempre encontram parceiras e súditos que assim se deixam seduzir.
E os símbolos fálicos ganham perenidade, travestem-se nos vários automóveis com seus barulhos em caixas de sons sob o porta malas, estuprando ouvidos e violentando o bom senso. Outros bem compridos exibem através do tamanho seu poder, outros partem para o esnobismo e há ainda aqueles que agradecem aos céus pelo dom de ter o tal fetiche, como se Deus fosse dono de concessionária.
E quem não reflete, reproduz como modismo, como um processo da normalidade. O banal se instala e junto a tristeza do comum, da normose coletiva. A cada dia ficamos mais incapazes de desbanalizar o banal.
Raro quando recebemos livre de apegos um presente de alguém. Geralmente presentes estão investidos de algum interesse. Dá-se algo, mas, fica o desejo de ver o presenteado com o mimo.
Certa vez conheci uma senhora que “doou” um anel para um amigo, mas, quando não o via com anel ficava triste e algumas vezes perguntava pela doação. Outro dia ouviu dele que perdeu o presente. Pronto foi o suficiente para o afastamento e as relações definitivamente cortadas.
Conheci o Sr. João que ganhara uma quantia em dinheiro para comprar tijolos para sua casa, mas, ele acabou por usar uma parte para financiar uma TV, o que deixou o doador enraivecido: ‘pobres diabos, ajudamos e vejam o que fazem!!’
Uma idosa ‘doou’ um vaso com uma planta rara para o Felipe. Todavia, três vezes por semana passava por sua casa para visitar ‘nossa planta’. Como a visita incomodava repassou o 'presente' para outra pessoa.
O padre ao visitar as casas no interior recebe uma galinha de ‘presente’, um porco, etc.,. Certo tempo depois: 'Seu padre tenho em casa um menino pra batizar...'
Presentes em muitos casos funcionam como coleiras, correntes, prisões, interesses..., em maior ou menor grau. Não deixam de apresentarem-se como resquícios de uma tentativa infantil de relacionar-se.
Certamente há os casos de presentes doados com um grande nível de desapego, sem interesses embutidos. Estes são atos de GRATUIDADE. Acho até que os pais desde cedo devem ajudar aos filhos a exercitarem este valor, mais, tarde será de grande relevância nas relações com os outros. Dar sem esperar qualquer forma de lucro, exceto, a serenidade que fica em si mesmo.
Penso que hoje necessitamos demais de homens e mulheres livres, porque generosos na GRATUIDADE. Assim sendo, as relações seriam menos de dependência e mais de “infinita responsabilidade pelo Outro”, no dizer de Levinas.
Necessitamos de nós mesmos e precisamos do outro. Este vai-e-vem incessante cria relações interpessoais caracterizadas pelo prazer e pela angústia. Prazer pela presença que parece nos completar e angústia da incompletude que não tarda a se revelar clarividente. Há uma alegria que dura no meio dos pólos prazer e angústia: fazer o bem ao outro.
Fazer o bem sem esperar consideração de quem recebeu a bondade. Fazer o bem e sair de perto. "Esquecer" e continuar fazendo. Semear e se possível deixar que outros colham os frutos. Isto é o que se chama GRATUIDADE.
A Gratuidade nos ajuda a aceitar e a criar um biombo de proteção para não sentirmos tanto a DOR DO MUNDO.
Nos nossos dias qualquer pessoa sensível sente o grito do mundo, o grito da terra, das crianças, dos trabalhadores, das famílias, das águas, dos animais, das florestas, dos migrantes, dos pobres, dos doentes, dos sem o básico para viver com dignidade.
A dor que está fora de nós adentrando em nossa subjetividade pode empacar nosso esforço em fazer o bem ao misturar-se com nossa dor pessoal, produzindo indiferença ao que está distante de nosso próprio umbigo.
A DOR DO MUNDO pode ser cuidada com o 'unguento' da GRATUIDADE.
Durante muitos séculos grupos de homens glutões empazinaram-se de abundantes alimentos . Ficaram todos com colesterol, açúcar e álcool nas veias; CO2 de seus tabacos, veículos e fábricas nos pulmões e ventres excessivamente adiposos. Suas almas como folhas de enfeite, ficaram desidratadas por que já não havia mais razão e sentido em suas vidas frias voltadas principalmente para o deus-consumo.
Tiveram então uma grande idéia: montaram um grande festa com um banquete repleto de mesas coloridas com doces engordurados, massas globalizadas, álcool de todas as espécies e muito CO2 ainda guardados em suas charuteiras. Convidaram outros homens. Homens esquálidos, miseráveis, pobres e remediados somente para o final do jantar, para o resto que sobrou do repasto. O gran finale da idéia brilhante estava por vir: os outros homens estavam sendo convidados para ratear as despesas com os glutões. E para celebrar a desvergonha resolveram juntar-se na escandinávia, lá nas terras frias, onde dizem que pela vizinhança, na Lapônia, criaram outra reinventada fábula - a do velho Noel.
Joana está há quatro anos tentando transferir-se para outra cidade. A família está lá, tudo seu está lá onde concorre a vaga. Desta vez o melhor currículo era o dela, o melhor cabedal de experiência era o seu. Sem chances curriculares e de experiência para os outros candidatos.
Caso o bom senso ainda existisse naquela organização não haveria dúvidas: Joana realizaria o sonho de morar em sua casa própria e viver com as filhas, marido e família.
Todo o dia Joana olhava o sistema de informação desta antiga instituição federal brasileira. E lá estava ela e seus pares concorrendo, ela em primeiro lugar. Um brilho nos olhos de toda sua família, inclusive das duas filhas pequenas eram transparentes. Afinal desta vez a família estaria unida na casa que construíram, mas que ainda não era um lar completo.
Estes dias ela olhou no sistema e percebeu um novo candidato com apenas um ano na instituição concorrendo à vaga. Joana mesmo jovem já tinha mais de uma dezena de anos de experiência em várias funções. O novo candidato pelo que se via seria o último a ser escolhido.
Curiosa verificou no sistema de onde vinha este jovem candidato com tão pouca experiência, detalhe: do local anterior de onde trabalhava a atual gerente-selecionadora. Ela então pressagiou ao telefone para sua família, até então alegre e na torcida: “o jovem inexperiente será o escolhido”.
Dito e feito: lá estava no dia seguinte o nome do jovem inexperiente na centenária instituição federal brasileira, na vaga que não seria sua por merecimento.
Na verdade, Joana não fez nenhum vaticínio negativo, pois, é corriqueiro que viver neste país é se avizinhar com certos tipos de desonestidades e injustiças, assim como é certo que os espertos tentarão fingir que estavam à sua frente para tomar a vez na fila ou que algum político ou juiz colocou junto a si parente sem concurso público para receber salário à custa dos impostos dos trouxas.
Experiência, currículo e muito menos ética e caráter são levados em conta. E nestes tempos insensatos nem a lamparina da consciência se acende, nem o pudor se aclara. A praga do fisiologismo corporativista, prática conhecida também desde a fundação deste país como ‘peixada’ foi mais uma vez o norte, a baliza, o referencial.
Neste instante este caso real, se repete como clone em série entre tantas organizações onde a praga da desonestidade, da falta de pudor, da ética, da consciência comprometida, está instalada até a tampa do néo-cortex cerebral.
Vendam-se os olhos da lucidez e deixa-se solto o cinismo despudorado.
Clãs corporativos se formam em organizações públicas carregando o obscurantismo semelhante às sociedades secretas medievais, a diferença é que estas práticas não são tão secretas com a tecnologia dos sistemas de informação atuais. O que há é medo de ser perseguido e jamais crescer profissionalmente dentro da organização caso se aponte estas práticas como amorais e ilegais.
Perdura a lei da mordaça e o comportamento tribal, imperioso que divide os semelhantes entre inferiores e superiores tendo o critério espúrio do jogo de intimidades. E a quem tentar contradizer tal bandalheira os discípulos do rei vociferam: “por que não te calas!”
Grupinhos herméticos fazem escola e a cada ‘peixada’ produzem aspirantes que então festejam suas tolas orgias regadas a gargalhadas e abraços festivos. E viva a mais pura sacanagem e viva o cinismo brasileiro!!!
E antes que me perguntem sobre a Joana, bom, a Joana é o outro lado do brasileiro, o avesso do Macunaíma. Ela irá persistir na honestidade, na competência e na idoneidade ética. Continuará tentando dentro dos parâmetros legais divulgados pela organização como o único caminho para se conseguir transferências para outra cidade, mas, todos sabem que isto é um blefe organizacional, uma mera peça do estilo marketing do parecer ser.
Joana diferente da organização a qual pertence não parece ser. Ela continuará na organização fazendo o melhor, superando a média esperada. Ouvirá elogios sobre sua competência e ética, mas, ela mesma já sabe que isto não tem efeitos práticos naquela organização. Mas, jamais se converterá num Macunaíma corporativo. Continuará crendo que um dia viverá com sua família e fará de sua casa um lar.
Não sei se ela sabe, mas, ela é discípula-fiha de Jesus, de Tagore, de Luther King, de Mandela, de Paulo Freire, de Albert Schweitzer, de Gandhi, de Tolstoi...
E eu me recarrego de energias boas sabendo ainda da existência de almas nobres como a da Joana.
Lara vivia em Natal e não sabia que curso escolher, num lampejo marcou 'X'. Paulo estava a 3500 km de distância e sabia qual curso escolher, todavia, não sabia em qual cidade iria prestar exames. Um amigo chegou e num segundo indicou Natal. Um ano depois Lara e Paulo estudavam na mesma turma, após cinco anos casaram-se e seis anos mais tarde tiveram um filho, estão felizes.
Segundos mudam vidas. Circunstâncias que a vida oferece e sem ter no bojo qualquer estratégia ou planejamento, levam pessoas num breve momento a optar por um caminho, a tomar decisões que mudam destinos para sempre.
Claro, tudo não depende daquele segundo como quem agarra a oportunidade com as mãos e não larga mais. Não há mágica, mas, um cuidado constante a partir do insight inicial, como costuma fazer um jardineiro fiel.
Ao ver este pequeno filme acima alguns sentimentos se apresentam velozmente em nossa subjetividade. Um se sobrepõem ao outro em segundos: ternura, susto, medo, pavor, desespero, agonia, angústia, solidão, pequenez, fraqueza, dor, sofrimento, covardia, fim, morte, entrega, sorte, alívio, proteção, vigor, autoridade, força, carinho, afeto, ternura, companhia, cuidado, aconchego...
Como uma colcha de retalhos os sentimentos formam uma complexidade que nos habita. Quando não os identificamos eles ficam amorfos. Tornam-se fantasmas, assombram, amaldiçoam, tornam-se 'demônios' interiores. Percebê-los, nomeá-los é um começo para o autoconhecimento e fonte de libertação. Dizer, falar, conversar e ter alguém para escutar-nos é salvífico. Tão salvífico quanto para o ursinho do filme ter o acolhimento da mãe. Os perigos continuam, mas, os fatos ganham uma forma mais próxima do real. Diferentemente quando não nomeamos os sentimentos dramatizam-se e com o artifício do imaginário ficam ilimitados, exageram-se até a loucura que vemos diariamente em nossos dias.
Felizes dos que além do conforto de seus sofás, encontram conforto emocional como eu imagino tenha encontrado este feliz filhote de urso.
Ultimamente tem-se dito que o 'amor adoeceu'. Mas, culpar logo o amor? A técnica como fim, a midiatização como busca, a superficialidade em quase tudo que se faz na vida produz ignorâncias afetivas, decisões doentias e a irracionalidade travestida de racionalidade. O Mahatama nos ajuda a compreender o abismo que se forma entre nós e o amor como resposta.
Um dia, um filósofo indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos:
- Por que é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
- Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
- Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?, questionou novamente o pensador.
- Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo. E o mestre voltou a perguntar:
- Então não é possível falar-lhe em voz baixa? Surgiram várias outras respostas, mas nenhuma convenceu o pensador.
Então ele esclareceu:
- Vocês sabem por que se grita com uma pessoa quando se está aborrecido? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir essa distância, precisam gritar, para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvirem um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes, os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E, quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas se amam, estão próximas. Por fim, o filósofo concluiu dizendo:
- Quando vocês discutirem, não deixem que os seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.
Pistoleiros ainda existem, sobretudo, em regiões esquecidas deste Brasil, talvez do mundo. Até há um tempo os filmes eram muitos retratando o velho oeste estadunidense e os famosos bang-bangs, a lei da bala. Certo, mas, há outros pistoleiros que matam sem sair sangue da vítima. Pois, acertam a alma com o objetivo de secá-la, exaurindo sua substância sem piedade. Estes expelem falas venenosas sem argumentos, sem saber bem o que dizem destroem (ou tentam destruir) as pessoas, embora as deixem vivas.
Eles/elas estão lá em seus covis, mal-resolvidos, penetrados como água na esponja, com o veneno do ciúme, da inveja, das carências infantis. Atentos para atirar seu projétil venenoso e ver o outro derrubado, num nível chulo, participando do seu mundo vil, o mundo dos homens-rola-bostas.
O autor do desenho acima resume de forma trágico-cômica as drogas midiáticas que boa parte da família brasileira consome nos últimos tempos. Aumenta o empobrecimento intelecto-espiritual, a secura da alma, a falta de sentido profundo de vida. Rareia o estabelecimento de relacionamentos vigorosos e gentis. Um mundo melhor fica no desejo, nos sentimentalismos, na emotividade... desaparece como bola de sabão. Desta forma, faz morada a fadiga que anestesia o esforço que, de fato, é o que transforma a realidade promovendo a libertação.