terça-feira, agosto 10

Presentes e a Gratuidade



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Por Lindomar Freitas de Almeida
Raro quando recebemos livre de apegos um presente de alguém. Geralmente presentes estão investidos de algum interesse. Dá-se algo, mas, fica o desejo de ver o presenteado com o mimo.
Certa vez conheci uma senhora que “doou” um anel para um amigo, mas, quando não o via com anel ficava triste e algumas vezes perguntava pela doação. Outro dia ouviu dele que perdeu o presente. Pronto foi o suficiente para o afastamento e as relações definitivamente cortadas.
Conheci o Sr. João que ganhara uma quantia em dinheiro para comprar tijolos para sua casa, mas, ele acabou por usar uma parte para financiar uma TV, o que deixou o doador enraivecido: ‘pobres diabos, ajudamos e vejam o que fazem!!’
Uma idosa ‘doou’ um vaso com uma planta rara para o Felipe. Todavia, três vezes por semana passava por sua casa para visitar ‘nossa planta’. Como a visita incomodava repassou o 'presente' para outra pessoa.
O padre ao visitar as casas no interior recebe uma galinha de ‘presente’, um porco, etc.,. Certo tempo depois: 'Seu padre tenho em casa um menino pra batizar...'
Presentes em muitos casos funcionam como coleiras, correntes, prisões, interesses..., em maior ou menor grau. Não deixam de apresentarem-se como resquícios de uma tentativa infantil de relacionar-se.
Certamente há os casos de presentes doados com um grande nível de desapego, sem interesses embutidos. Estes são atos de GRATUIDADE. Acho até que os pais desde cedo devem ajudar aos filhos a exercitarem este valor, mais, tarde será de grande relevância nas relações com os outros. Dar sem esperar qualquer forma de lucro, exceto, a serenidade que fica em si mesmo.
Penso que hoje necessitamos demais de homens e mulheres livres, porque generosos na GRATUIDADE. Assim sendo, as relações seriam menos de dependência e mais de “infinita responsabilidade pelo Outro”, no dizer de Levinas.

sábado, junho 19

A dor do mundo e a gratuidade


Por Lindomar Freitas de Almeida

Necessitamos de nós mesmos e precisamos do outro. Este vai-e-vem incessante cria relações interpessoais caracterizadas pelo prazer e pela angústia. Prazer pela presença que parece nos completar e angústia da incompletude que não tarda a se revelar clarividente. Há uma alegria que dura no meio dos pólos prazer e angústia: fazer o bem ao outro.

Fazer o bem sem esperar consideração de quem recebeu a bondade. Fazer o bem e sair de perto. "Esquecer" e continuar fazendo. Semear e se possível deixar que outros colham os frutos. Isto é o que se chama GRATUIDADE.

A Gratuidade nos ajuda a aceitar e a criar um biombo de proteção para não sentirmos tanto a DOR DO MUNDO.

Nos nossos dias qualquer pessoa sensível sente o grito do mundo, o grito da terra, das crianças, dos trabalhadores, das famílias, das águas, dos animais, das florestas, dos migrantes, dos pobres, dos doentes, dos sem o básico para viver com dignidade.

A dor que está fora de nós adentrando em nossa subjetividade pode empacar nosso esforço em fazer o bem ao misturar-se com nossa dor pessoal, produzindo indiferença ao que está distante de nosso próprio umbigo.

A DOR DO MUNDO pode ser cuidada com o 'unguento' da GRATUIDADE.

quarta-feira, dezembro 16

Copenhague 2009 - a Fábula



Por Lindomar Freitas de Almeida

Uma fábula nos últimos dias de 2009:


Durante muitos séculos grupos de homens glutões empazinaram-se de abundantes alimentos . Ficaram todos com colesterol, açúcar e álcool nas veias; CO2 de seus tabacos, veículos e fábricas nos pulmões e ventres excessivamente adiposos. Suas almas como folhas de enfeite, ficaram desidratadas por que já não havia mais razão e sentido em suas vidas frias voltadas principalmente para o deus-consumo.

Tiveram então uma grande idéia: montaram um grande festa com um banquete repleto de mesas coloridas com doces engordurados, massas globalizadas, álcool de todas as espécies e muito CO2 ainda guardados em suas charuteiras. Convidaram outros homens. Homens esquálidos, miseráveis, pobres e remediados somente para o final do jantar, para o resto que sobrou do repasto. O gran finale da idéia brilhante estava por vir: os outros homens estavam sendo convidados para ratear as despesas com os glutões. E para celebrar a desvergonha resolveram juntar-se na escandinávia, lá nas terras frias, onde dizem que pela vizinhança, na Lapônia, criaram outra reinventada fábula - a do velho Noel.


quinta-feira, novembro 12

A saga de Joana entre Macunaímas corporativos e o marketing do parecer ser


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Por Lindomar Freitas de Almeida

Joana está há quatro anos tentando transferir-se para outra cidade. A família está lá, tudo seu está lá onde concorre a vaga. Desta vez o melhor currículo era o dela, o melhor cabedal de experiência era o seu. Sem chances curriculares e de experiência para os outros candidatos.
Caso o bom senso ainda existisse naquela organização não haveria dúvidas: Joana realizaria o sonho de morar em sua casa própria e viver com as filhas, marido e família.
Todo o dia Joana olhava o sistema de informação desta antiga instituição federal brasileira. E lá estava ela e seus pares concorrendo, ela em primeiro lugar. Um brilho nos olhos de toda sua família, inclusive das duas filhas pequenas eram transparentes. Afinal desta vez a família estaria unida na casa que construíram, mas que ainda não era um lar completo.
Estes dias ela olhou no sistema e percebeu um novo candidato com apenas um ano na instituição concorrendo à vaga. Joana mesmo jovem já tinha mais de uma dezena de anos de experiência em várias funções. O novo candidato pelo que se via seria o último a ser escolhido.
Curiosa verificou no sistema de onde vinha este jovem candidato com tão pouca experiência, detalhe: do local anterior de onde trabalhava a atual gerente-selecionadora. Ela então pressagiou ao telefone para sua família, até então alegre e na torcida: “o jovem inexperiente será o escolhido”.
Dito e feito: lá estava no dia seguinte o nome do jovem inexperiente na centenária instituição federal brasileira, na vaga que não seria sua por merecimento.
Na verdade, Joana não fez nenhum vaticínio negativo, pois, é corriqueiro que viver neste país é se avizinhar com certos tipos de desonestidades e injustiças, assim como é certo que os espertos tentarão fingir que estavam à sua frente para tomar a vez na fila ou que algum político ou juiz colocou junto a si parente sem concurso público para receber salário à custa dos impostos dos trouxas.
Experiência, currículo e muito menos ética e caráter são levados em conta. E nestes tempos insensatos nem a lamparina da consciência se acende, nem o pudor se aclara. A praga do fisiologismo corporativista, prática conhecida também desde a fundação deste país como ‘peixada’ foi mais uma vez o norte, a baliza, o referencial.
Neste instante este caso real, se repete como clone em série entre tantas organizações onde a praga da desonestidade, da falta de pudor, da ética, da consciência comprometida, está instalada até a tampa do néo-cortex cerebral.
Vendam-se os olhos da lucidez e deixa-se solto o cinismo despudorado.
Clãs corporativos se formam em organizações públicas carregando o obscurantismo semelhante às sociedades secretas medievais, a diferença é que estas práticas não são tão secretas com a tecnologia dos sistemas de informação atuais. O que há é medo de ser perseguido e jamais crescer profissionalmente dentro da organização caso se aponte estas práticas como amorais e ilegais.
Perdura a lei da mordaça e o comportamento tribal, imperioso que divide os semelhantes entre inferiores e superiores tendo o critério espúrio do jogo de intimidades. E a quem tentar contradizer tal bandalheira os discípulos do rei vociferam: “por que não te calas!”
Grupinhos herméticos fazem escola e a cada ‘peixada’ produzem aspirantes que então festejam suas tolas orgias regadas a gargalhadas e abraços festivos. E viva a mais pura sacanagem e viva o cinismo brasileiro!!!
E antes que me perguntem sobre a Joana, bom, a Joana é o outro lado do brasileiro, o avesso do Macunaíma. Ela irá persistir na honestidade, na competência e na idoneidade ética. Continuará tentando dentro dos parâmetros legais divulgados pela organização como o único caminho para se conseguir transferências para outra cidade, mas, todos sabem que isto é um blefe organizacional, uma mera peça do estilo marketing do parecer ser.
Joana diferente da organização a qual pertence não parece ser. Ela continuará na organização fazendo o melhor, superando a média esperada. Ouvirá elogios sobre sua competência e ética, mas, ela mesma já sabe que isto não tem efeitos práticos naquela organização. Mas, jamais se converterá num Macunaíma corporativo. Continuará crendo que um dia viverá com sua família e fará de sua casa um lar.
Não sei se ela sabe, mas, ela é discípula-fiha de Jesus, de Tagore, de Luther King, de Mandela, de Paulo Freire, de Albert Schweitzer, de Gandhi, de Tolstoi...
E eu me recarrego de energias boas sabendo ainda da existência de almas nobres como a da Joana.

domingo, outubro 11

Segundos

Por Lindomar Freitas de Almeida

Lara vivia em Natal e não sabia que curso escolher, num lampejo marcou 'X'. Paulo estava a 3500 km de distância e sabia qual curso escolher, todavia, não sabia em qual cidade iria prestar exames. Um amigo chegou e num segundo indicou Natal. Um ano depois Lara e Paulo estudavam na mesma turma, após cinco anos casaram-se e seis anos mais tarde tiveram um filho, estão felizes.

Segundos mudam vidas. Circunstâncias que a vida oferece e sem ter no bojo qualquer estratégia ou planejamento, levam pessoas num breve momento a optar por um caminho, a tomar decisões que mudam destinos para sempre.

Claro, tudo não depende daquele segundo como quem agarra a oportunidade com as mãos e não larga mais. Não há mágica, mas, um cuidado constante a partir do insight inicial, como costuma fazer um jardineiro fiel.

terça-feira, maio 12

Conforto emocional


Clique para ver o filme o puma e o ursinho

Por Lindomar Freitas de Almeida

Ao ver este pequeno filme acima alguns sentimentos se apresentam velozmente em nossa subjetividade. Um se sobrepõem ao outro em segundos: ternura, susto, medo, pavor, desespero, agonia, angústia, solidão, pequenez, fraqueza, dor, sofrimento, covardia, fim, morte, entrega, sorte, alívio, proteção, vigor, autoridade, força, carinho, afeto, ternura, companhia, cuidado, aconchego...

Como uma colcha de retalhos os sentimentos formam uma complexidade que nos habita. Quando não os identificamos eles ficam amorfos. Tornam-se fantasmas, assombram, amaldiçoam, tornam-se 'demônios' interiores. Percebê-los, nomeá-los é um começo para o autoconhecimento e fonte de libertação. Dizer, falar, conversar e ter alguém para escutar-nos é salvífico. Tão salvífico quanto para o ursinho do filme ter o acolhimento da mãe. Os perigos continuam, mas, os fatos ganham uma forma mais próxima do real. Diferentemente quando não nomeamos os sentimentos dramatizam-se e com o artifício do imaginário ficam ilimitados, exageram-se até a loucura que vemos diariamente em nossos dias.

Felizes dos que além do conforto de seus sofás, encontram conforto emocional como eu imagino tenha encontrado este feliz filhote de urso.

sexta-feira, abril 24

Por que gritamos???

Por Lindomar F de Almeida

Ultimamente tem-se dito que o 'amor adoeceu'. Mas, culpar logo o amor? A técnica como fim, a midiatização como busca, a superficialidade em quase tudo que se faz na vida produz ignorâncias afetivas, decisões doentias e a irracionalidade travestida de racionalidade. O Mahatama nos ajuda a compreender o abismo que se forma entre nós e o amor como resposta.

Um dia, um filósofo indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos:
- Por que é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
- Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
- Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?, questionou novamente o pensador.
- Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo. E o mestre voltou a perguntar:
- Então não é possível falar-lhe em voz baixa? Surgiram várias outras respostas, mas nenhuma convenceu o pensador.
Então ele esclareceu:
- Vocês sabem por que se grita com uma pessoa quando se está aborrecido? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir essa distância, precisam gritar, para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvirem um ao outro, através da grande distância.

Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes, os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E, quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas se amam, estão próximas. Por fim, o filósofo concluiu dizendo:
- Quando vocês discutirem, não deixem que os seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.

Mahatma Gandhi.

sábado, fevereiro 14

Pistolagem existencial e os Homens-rola-bostas

Foto: Rodrigo Vieira Soares 2008

Por Lindomar Freitas de Almeida

Pistoleiros ainda existem, sobretudo, em regiões esquecidas deste Brasil, talvez do mundo. Até há um tempo os filmes eram muitos retratando o velho oeste estadunidense e os famosos bang-bangs, a lei da bala. Certo, mas, há outros pistoleiros que matam sem sair sangue da vítima. Pois, acertam a alma com o objetivo de secá-la, exaurindo sua substância sem piedade. Estes expelem falas venenosas sem argumentos, sem saber bem o que dizem destroem (ou tentam destruir) as pessoas, embora as deixem vivas.

Eles/elas estão lá em seus covis, mal-resolvidos, penetrados como água na esponja, com o veneno do ciúme, da inveja, das carências infantis. Atentos para atirar seu projétil venenoso e ver o outro derrubado, num nível chulo, participando do seu mundo vil, o mundo dos homens-rola-bostas.

quarta-feira, setembro 10

Força interior



Por Lindomar Freitas de Almeida


“Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida.
A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora.
Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem.
Daria a capacidade de escolher novos rumos, novos caminhos.
Deixaria, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável.
Além do pão, o trabalho.
Além do trabalho, a ação.
Além da ação o cultivo à amizade.
E, quando tudo mais faltasse, deixaria um segredo:
O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída”.
Gandhi

quinta-feira, julho 3

"Cultura" midiática e miséria intelecto-espiritual

Por Lindomar Almeida

O autor do desenho acima resume de forma trágico-cômica as drogas midiáticas que boa parte da família brasileira consome nos últimos tempos. Aumenta o empobrecimento intelecto-espiritual, a secura da alma, a falta de sentido profundo de vida. Rareia o estabelecimento de relacionamentos vigorosos e gentis. Um mundo melhor fica no desejo, nos sentimentalismos, na emotividade... desaparece como bola de sabão. Desta forma, faz morada a fadiga que anestesia o esforço que, de fato, é o que transforma a realidade promovendo a libertação.

segunda-feira, junho 23

Evoluções, involuções e revoluções


Lindomar Almeida

As notícias que chegam aos ouvidos e olhos são de progresso técnico: "Nunca a humanidade evoluiu tanto", "a humanidade evoluiu nos últimos 50 anos mais do que em toda sua história". A ubiqüidade torna-se a característica dos aparelhos eletrônicos e das rápidas relações modernas. O acesso a este universo técnico é símbolo de avanço em relação aos demais sujeitos. Uma legião de seguidores seguem os cânones, os padrões ditados, pois, necessitam se afinar às tendências.

Assim, enquanto 'evoluídos' tecnicamente, a cada dia ressoam também notícias de involução no campo das relações humanas. São muros construídos entre fronteiras, acentuação de purismos étnicos/culturais, o diferente sendo vilipendiado - como é o caso do imigrante tratado como ralé -até as expressões mais primitivas de violência fria e despudorada, principalmente nos centros urbanos.

Evoluídos tecnologicamente, porém, estamos voltando ao tempo da pedra lascada em matéria de relações dialógicas. Um perigo, porque se estamos com acesso a técnica, de outro modo, ficamos desarrazoados. Custou-nos tanto descobrir a cooperação, que nos possibilitou o viver gregário, e estamos num processo de autodestruição pela competição selvagem, em nome da maximização do lucro.

O que fazer? eu, você?

Não é possivel hoje somente sonhar com utopias sociais, como mudanças externas, sem levar em consideração o âmago do sujeito, o despertar interior, a cultura psíquica. Sonhar (exterioridade) e despertar (interioridade) são atravessamentos imprescíndíveis contra o cansaço fluido da modernidade.

Mudanças para melhor ocorrem no mundo, não somente por decretos, senão, por ações referendadas por revoluções internas.

sábado, maio 17

Bondade e compaixão

Por Lindomar Freitas de Almeida

Em tempos de violência exacerbada, explosões de vazios midiáticos, demonstrações gratuitas de poder, eis uma lição simples, do ser humano Dalai, que cai como semente vigorosa no coração humano. Bom proveito:

BONDADE E COMPAIXÃO - MOVIMENTO MUNDIAL PELA PAZ DE ESPÍRITO

Esta noite, gostaria de falar a vocês sobre a importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas, não me vejo como budista Dalai Lama ou Tibetano, mas sim como um ser humano e espero que vocês, no auditório,pensem em si mesmos dessa maneira.

Não como americanos, ocidentais ou membros de um determinado grupo,pois essas condições são secundárias. Se interagirmos como seres humanos,podemos chegar a esse nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as afirmações serão, em comparação com a minha natureza de ser humano, temporárias.

Ser humano é básico. Uma vez nascido assim, não se poderá mudar até a morte. Outras condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são secundárias.

Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos.

Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso.Em outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana.

O fato de brigarmos uns com os outros se deve a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para ferir uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, conseqüentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o econômico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário, pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam escutando com o pensamento: "Sou um ser humano e estou ouvindo outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objetivo de alcançá-la, entretanto,devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos reencontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos.

Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usa da.Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reação for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente.Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor,compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força.

A responsabilidade permanece em nossa mente, de onde se comandam as ações. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou falando de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranqüilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva nos faz perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento.

Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão nos permite julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos atuais, mas em projeções para daqui a dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos.

Contudo, se nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos.

Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos de criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade.Se refletirmos a respeito dessas questões com freqüência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e conscientização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado por dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Em uma nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação.

Em nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível. Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um em outro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa.

Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudéssemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar.

Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar.

Mesmo que você não possa se sacrificar inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade.Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios.

Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade.

Dalai Lama

sábado, março 22

Nascer...


Por Lindomar Freitas de Almeida
Entrar num mundo com ruídos, barulhos, luzes excessivamente claras, vozes desconhecidas e descansar em um berço largo. Tão diferente da relação íntima, do aperto afetivo na barriga da mãe.
O estômago será o motivo de choros quando vazio, de choros quando cheio de gases, de choros quando cheio demais. Aos poucos o estômago adapta-se, amadurecendo já próximo do trigésimo dia, quando as evacuações serão mais espaçosas. Fazê-lo arrotar e eliminar gases é um alívio para o bebê, juntando a isto os cuidados diários ajuda-se a estruturar a idéia de que ele é protegido. Pois, o medo nesta fase é de ser abandonado. Medo este que será uma lembrança por muito tempo em nossas vidas, até o dia em que, quando adultos, o ressignificarmos e, então, num processo de crescimento pessoal aprendermos a con-viver com os outros tendo-os como companheiros da existência, jamais como tábua de salvação.
Paradoxalmente ao medo do abandono, se estabelece neste começo da vida a confiança. Confiança que será a base futura para fé. Confiança e abandono, são irmãos siameses neste começo. Os pais, neste sentido, são na relação com o nenén a fonte destes dois traços para o resto da vida.

Que papel importante! A sensação de proteção, de aconchego, de vínculo afetivo com os pais diminue o medo - estabelece-se a confiança. A imagem que temos de Deus, por exemplo, está intimamente relacionada com este momento inicial quando se estabelece a confiança. Podemos dizer, que desta imagem de Deus (confiança e bondade), desenvolvida na relação com os pais, será impossível destituirmo-nos. Dizer que se é ateu é preciso definir de quê, pois, desta Imago Dei é praticamente impossível.

Quando há preparação consciente o momento do nascimento torna-se o principal gozo da vida, a otimização do orgasmo, onde os horizontes ficam mais claros e uma inquebrantável força de viver surge, pois, a própria vida em sua expressão frágil e terna, torna os pais fortes porque cuidadores do próprio Mistério em suas mãos.

segunda-feira, fevereiro 4

Paraíso uterino, perdas, faltas e dialogicidade


Por Lindomar Freitas de Almeida

Um momento central, fundante é a gestação de um filho. Conter o vaso frágil e poderoso da vida só ela pode. A princípio naquele ambiente uterino o bebê constrói sua primeira relação com o mundo e com o primeiro grande Outro, a mãe representação do universo social. A partir dos três meses começa a ouvir os muitos sons internos: pulmões da mãe que inflam e desinflam, o baticum do coração materno e a própria voz da mãe que mergulha gel adentro onde ele dorme, quase sempre. Depois, ainda na barriga, vem as cambalhotas, brincadeiras e interações com a mãe ou pai, caso ele seja presente. As interações vão se construindo entre mãe-bebê, mas, um pai que acompanha é o diferente dialógico fundamental. Ao nascer irá reconhecer os sons das vozes de quem esteve com ele na gestação e sentirá mais confiança num momento tão delicado ao sair de seu habitat aconchegante. Afinal no útero, mesmo nú, não sentirá frio, tampouco calor. Lá não é claro, totalmente escuro também não é. Se há imagem de um paraíso na terra é este, todavia, somente por nove meses. Relação perfeita. União simbiótica salutar que, de outro modo, necessariamente terá que se desfazer. Deixando em cada um de nós a saudade do encontro perfeito. A perda, a falta, o desejo e a busca...

A partir do nascimento seremos 'caçadores da arca perdida' ou perdeu-se um elo da corrente e saímos a procurar... Onde encontrar um substituto? Um substituto não, buscaremos várias formas de substituir esta falta: pessoas, amores, amizades, paixões, bens materiais, poderes, cargos...

Pronto! Inaugura-se o ser-humano como um ainda-não, um devir, um vir-a-ser, um ser de processo, um ser inacabado. Um ser que jamais viverá relação igual aquela com a mãe e nem deve mais ser assim. Relação simbiótica somente a uterina. Agora como ser de busca as relações serão construídas tendo o conflito, a tensão como realidade e o convite para dialogicidade.

terça-feira, janeiro 15

Encapsulamentos do Self


Por Lindomar Freitas de Almeida

Anos passaram-se de uma visita a uma casa esquisita. Na porta de entrada havia uma fotografia de uma boca aberta desnudando os dentes. Adentrando a sala, mais fotos, próteses sobre a mesa enfeitando a moradia e, à medida que, a conversa desenvolvia-se dentes, cáries, céu somente o da boca. Tentava-se mudar o assunto, porém, lá estava o universo oral tomando a cena. Lembro outra visita a um idoso europeu, em cadeira de rodas, sobrevivente das duas grandes guerras. O assunto dominante: bombas, armas, fome e banhos com meio litro d’água. Tentativas feitas para mudar o tema da conversa em vão. Outras visitas por aí poderia citar, mas, o objetivo aqui é ilustrar as fixações humanas, o encapsulamento do self.

Algumas situações fortes aprisionam o self naquele instante passado ficando difícil experimentar num grau prazeroso o presente. Outras vezes não há um evento forte, mas, um fazer repetitivo cristalizador. É comum encontrarmos pessoas que vivem em alguma instituição ou trabalham nelas com um repertório vocabular limitado àquela particularidade. Então há pessoas que restringem sua cosmovisão a motores, outros a doenças, outros a moda, plástica, futebol, investimento, leis...e por aí vai. Ora como se pode viver especificando-se, especializando-se, fragmentando-se de uma totalidade ao nosso redor que convida a percepção de suas nuances e matizes?

Alguns se recusam a aprender além de suas especialidades a mergulhar na novidade alvissareira que renova o self. Talvez porque experiências sempre mudam a gente, exigem esforço e desconstroem um tanto daquilo que éramos reconstruindo-nos de um novo jeito. O mergulho na experiência não pode especificar. EX= sair, fora. PERI= todos os lados. ÊNCIA: conhecer. Sair de mim para conhecer todos os lados não é especificar, estreitar.

Logo, um mundo de especialistas pode ser também um mundo de gente limitada, de visões míopes. Pessoas com um conhecimento técnico, mas, que não sabem viver. Há um vácuo abissal entre o conhecimento técnico sistematizado e a sabedoria de viver.

Veremos a cada dia mais selfs encapsulados, fixações e reducionismos nos dias que ainda virão. Cosmovisões baseadas em fundamentalismos científicos, institucionais, religiosos.

De outra maneira, a crise levará muitos ao despertar dos sentidos, a consciência dos atravessamentos que a todo instante nos perpassam, as dimensões de nosso ser, a tecedura de nossas complexidades humanas e a busca por espaços de dialogicidade e de encontro. A paradoxalidade da vida aponta muitas vias: uma delas é a da esperança.

Rato e relações.

Por Lindomar Almeida Renato está desempregado e fica em casa. Jandira sustenta a família nestes meses duros. Renato percebe qu...