segunda-feira, outubro 15

As extensões do 'eu'.


Por Lindomar Freitas de Almeida

Nem sempre nos damos conta das extensões do nosso eu, geralmente há uma impressão de que nossa referência pessoal reside numa instância dentro de nós e só. Todavia, muito do que somos acontece quando nos relacionamos - surge na relação com o outro (seja este outro pessoas, animais, natureza ou até mesmo objetos sem vida).

O quarto, a gaveta, os objetos pessoais, para ficar por aqui nos exemplos, são defendidos com rigor quando alguém sem permissão invade estes territórios, como se invadissem nosso próprio eu. Outros  chegam as raias do suicídio quando uma paixão vai embora, como se o próprio eu fosse junto. O apego a objetos ou pessoas dão uma boa esticada ao nosso eu, há aqueles que tem um 'euzão' com tantas coisas a administrar que uma velha anedota explica bem o caso, lembrando que, piadas são também um reflexo da angústia do ser humano, rimos daquilo que temos dificuldade em aceitar ou explicar:

"Acidenta-se um automóvel. O condutor surge das ferragens e geme:
- Meu Mercedes...Meu Mercedes...
Alguém diz:
- Mas, senhor... que importa o carro? Não vê que perdeu um braço?
Olhando o coto sangrento, o homem chora:
- Meu Rolex...Meu Rolex!"



domingo, outubro 7

O analista político do botequim



Por Lindomar Freitas de Almeida

Esta semana num café da manhã em um boteco, antes de começar os atendimentos matinais, perguntei a um sujeito simpático a minha frente sobre quem vence as eleições para prefeito aqui na nossa cidade. Com uma sinceridade visceral ele respondeu:

- Vão para o segundo turno o atual prefeito com a mais rica campanha e o candidato X, mas, caso a oposição se una o atual prefeito não se reelege. Porém, a política é feita de pouca união e muito interesse em dinheiro! Muitos candidatos gastaram muito então o atual prefeito-candidato chamará os opositores e perguntará quanto o sujeito gastou na campanha e oferece o dobro, pronto foi dado um 'cala boca'. Pode funcionar assim o segundo turno, escute bem o que estou te falando. E continuou. - político nenhum quer perder dinheiro, não existe mais esta coisa de ideais entre eles.

A visceralidade em sua comunicação dava um tom de certeza no que dizia. Continuei perguntando.

- Você já percebeu a quantidade de candidatos a vereadores que fazem questão de ser chamados de 'doutores'? Alguns de tão cafonas posam de uniforme médico e estetoscópio pendurado no pescoço.

Ele foi mais veemente:

- O salário dos médicos não estão mantendo o padrão que almejam e estão buscando vida fácil ou você acredita que esta turma aí quer o bem da comunidade?! Isso aí que é vida fácil.

Enquanto escutava o analista político do botequim, lá ao longe num cantinho, os figurões de um canal de TV faziam suas conjecturas vendidas sobre eleições nas capitais, mas, sem comparação ao sujeito à minha frente, que deliciava-se com o café e tapioca, e falava sem eufemismo o que aprendeu por anos sobre o atual quadro político partidário.

quinta-feira, outubro 4

'Pessoas boas'.


Por Lindomar Freitas de Almeida

O garotinho do vizinho está aprendendo a falar e a tudo que tem quatro patas ele diz: 'au, au'. Ele generaliza, mas, à medida que, se desenvolve vai aprender que nem todo bicho de quatro patas é cachorro. Assimilará as especificações de cada coisa.

Infância, criança, adolescência, juventude, vida adulta e velhice. Mesmo passando por todas estas etapas ele não conseguirá entender todas as especificações, todas as sutilezas e matizes que cada ser carrega - seja bicho, seja gente.

Assim nas duas últimas décadas tenho observado as sutilezas e matizes das 'pessoas boas'. E se não me assusto tanto, talvez, porque já não levanto a bandeira das expectativas diante delas. Quando posso aceno para os desavisados, vai com calma em sua identificação meu rapaz!

Dá em cachos o número de reacionários, eugenistas, fascistas, xenófobos... entre as 'pessoas boas'. Inicialmente tem um sorriso no rosto e acolhimento generoso. Mas, escutem suas idéias e o rumo de sua linha de pensamento, observem bem suas práticas de generosidade amalgamadas com (sutil) diminuição do outro, punições ilegais, vinganças e vez por outra festa. Objetivo: gerar confusão de afetos.

Considerável parcela da população desacostumada que é de qualificação de afetos (baixa cultura da escuta no meio familiar) cai como mosca no mel diante dos 'bondosos'. Pode-se dizer, que como o garotinho filho de meu vizinho que diz au, au para todo bicho de quatro patas, alguns sujeitos acreditam em bondade aos primeiros sinais de generosidade.

Pascal (1623 - 1662) há um bocado de tempo alertou: "não há pior forma de maldade do que aquela feita com gestos de bondade".




terça-feira, outubro 2

Um coração na cabeça - Eduardo Galeano


Por Lindomar Freitas de Almeida

A filosofia, a história, a psicologia e demais ciências humanas colaboram na formação de uma cosmovisão, mas, são as experiencias vividas que mais ajudam a produzir uma relação dialógica entre 'nossa razão e nossos mitos, nossa razão e nossas paixões'. Esta figura acima é um ser humano curtido na relação com sua Pátria Grande (América Latina), amante de seu povo, intelectual com um coração na cabeça. Neste vídeo ele nos aponta a esperança na possibilidade de um outro mundo possível, este mundo atual está prenhe de uma novidade lá em frente.