segunda-feira, outubro 17

Do bicho homem a gentileza humana

Por Lindomar Freitas de Almeida

Tenho um velho jipe e gosto muito de dirigi-lo, na verdade, ele tem 15 anos e não o considero obsoleto. Gosto dele, sobretudo, do seu jeitão simples e porque me leva a lugares pouco explorados.

Hoje pela manhã no começo do caminho diário (creche do garoto, trabalho da companheira e meu trabalho) o freio de mão travou as engrenagens da caixa de marchas e ele teimosamente não saiu do lugar. Resultado: ligar para o  reboque do Seguro e oficina, em duas horas o jipe estava liberado. 

Na semana anterior reboquei um carro de porte médio que o mar estava engolindo, o dono desavisado começou a pescar e esqueceu da maré que enchia. Avisaram-me e como estava por perto consegui puxar o carro do postulante a pescador que ficou muito agradecido. Uns dias atrás já estava dormindo quando um conhecido me pediu para rebocar o carro dele que ficara na estrada, fui com toda presteza e sinto-me bem quando ajudo. Esta semana vi da minha casa que alguém aqui perto precisava de ajuda, fui até lá e primeiro tentei empurrar seu carro, nada, resolvi puxá-lo com o jipe até uma oficina mais próxima.

Hoje enquanto esperava o reboque do Seguro chegar, com meu filhinho no colo na beira da estrada, uma das pessoas que ajudei passou por mim e mesmo vendo o jipe parado com sinal de alerta, olhou para o carro e seguiu adiante. Depois disse que me viu, e só, nenhum complemento a mais na frase. Mas, o bom desta história estava para acontecer.

Um jovem senhor que, até então, nunca o vira parou seu carro a cerca de 50 metros, num retorno à frente, e vendo minha situação fez um sinal com a mão. Um pouco desconfiado fui lá:
-  Pois não Senhor, disse.
- Vejo que precisa de ajuda seu filho está com o uniforme da escola e eu estou com minha filha (cerca de cinco anos no banco de trás) que também está indo para creche, caso queira posso levá-los.
- Não é perto moço, avisei.
- Não há de quê quero ajudá-lo por dois motivos: primeiro pelo seu filho, segundo, porque gosto de jipes. 


No caminho fomos conversando e ele falou-me de sua família, de seu trabalho, do trânsito e compartilhamos muitas coisas em comum. A marca de sua gentileza foi algo tão legal que o resto do dia todo transcorreu bem. Claro, o mundo ficou melhor. Passou um filme em minha mente do quanto somos dementes e, ainda bem, que somos também sapientes. Gentileza gera gentileza.