quinta-feira, outubro 22

Rato e relações.



Por Lindomar Almeida

Renato está desempregado e fica em casa. Jandira sustenta a família nestes meses duros. Renato percebe que Jandira mudou: reclama mais, está distante e não quer sexo. Ele sente duplamente: o afastamento da mulher e nada de rendimentos no bolso. Guardou tudo no coração ou no estômago, depende do gosto.

Um dia sentados para o jantar um rato, destes pequenos, apareceu na cozinha. Renato levantou-se para matá-lo, mas, o animal entrou num pequeno buraco na parede, ele então aproveitou e tampou o buraco com papel.

Um, dois, três dias e o rato preso.

Durante o café Renato faz elogios a beleza de Jandira. Jandira solapa sua frase dizendo: este rato rói o papel, vejo seus dentes daqui. Impossível, retrucou Renato coloquei bastante papel, vou cansá-lo primeiro antes de matá-lo. Você está dizendo que minto? Porque ninguém acredita em mim, porque você não acredita em mim?!! A confusão se instalou, discutiram, ficaram fechados e foram ao trabalho sem se falar direito, tiveram uma despedida chocha com um falso beijo.

Maldito rato, diriam alguns.

Nada! Maldito silêncio. Poderia ser um urso, um javali, uma mosca... uma gota d'água. Tudo serviria como estopim, como gatilho, como subterfúgio para vir à tona experiências não significadas (frustrações) deste casal. No caso de Jandira um autoconceito de desvalor sobre si mesma, sentida por algum tempo que mina sua auto-estima. Renato não fica longe, sentindo o drama de sua pequenez nesta instabilidade financeira e afetiva.

Falar, expressar, chorar, desesperar-se diante de alguém/especialista de confiança é fundamental para ajustar-se em sua própria órbita e viver com saúde mental, apesar dos problemas. 

Todo 'dito' torna a relação conosco mesmo, com a comunidade, com a família, bendita.

Todo 'não-dito' tem o efeito contrário, torna maldita a relação com quem quer que seja. Inclusive um pequeno roedor adquire um grande poder de abalar uma relação.

quarta-feira, outubro 21

Quando a maternagem transcende a nossa realidade prosaica



Por Lindomar Almeida

Três letras e um mar de significados para nossa estrutura psíquica. Fundamentalmente precisamos de seu vínculo quando bebês e de que ela se afaste aos poucos nos dando capacidades de ir em frente sozinhos. Este afastamento inicial ocorre no parto, no desmame, no bebê ficar só por um tempo enquanto ela tem seus afazeres... Aos poucos se espera que criemos força psíquica neste vai e vem da presença ou não dela.

A confiança e as perdas vividas na infância deve nos fortalecer os músculos da mente e do espírito para lidarmos com tantos fracassos e suporte para o ego nos anos seguintes do existir. Grande tarefa a relação da mãe com o bebê e o nosso destino humano.

De repente, quando um dia perdemos definitivamente sua presença física, com a morte dela que chega, perdemos a mestra que nos exercitou - quase sempre inconscientemente -  para arte de ganhar e perder. Porém, se espera que agora adultos, junto com o sentimento da dor que fica, se compreenda o valor de seu significado para formação de nossa saúde mental.

Para quem tem fé eis mais um artifício para superar a dor: a confiança de saber que quem lhe fez tanto bem foi acolhida noutra dimensão abranda a alma e ter certo que tudo aqui é impermanente, atenua o drama e nos prepara para o imponderável nesta vida. Vá em paz mãe.

quarta-feira, fevereiro 27

Tempo de raízes rasteiras



Por Lindomar Freitas de Almeida

Sartre disse algo assim: 'Nunca se é homem enquanto não se encontra algo pela qual se estaria disposto a morrer'. Uma afirmação crucial para entender e existir no tempo em que vivemos,  conhecido por modernidade líquida, em que  tudo 'é volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante, perde consistência e estabilidade' (Bauman).


Pisamos em um terreno frágil que se desfaz como casca de ovos, antes se morria pela pátria, por Deus,  por religiões, etc. Por quem hoje estaríamos dispostos a morrer no mundo Ocidental? O que nos resta de sagrado? Luc Ferry nos ajuda a ver que só a família (núcleo mais restrito) restou como sagrado e pela qual alguém daria até a vida. 


Vivemos em um tempo em que os vínculos tem raízes rasteiras e o sentido de pertença tão instável quanto gelo no calor. Se o cenário é nebuloso (como a foto acima), não deixa de ser também misterioso, cheio de encantos e um chamamento para o conhecimento de nossa época e de nós mesmos.

segunda-feira, outubro 15

As extensões do 'eu'.


Por Lindomar Freitas de Almeida

Nem sempre nos damos conta das extensões do nosso eu, geralmente há uma impressão de que nossa referência pessoal reside numa instância dentro de nós e só. Todavia, muito do que somos acontece quando nos relacionamos - surge na relação com o outro (seja este outro pessoas, animais, natureza ou até mesmo objetos sem vida).

O quarto, a gaveta, os objetos pessoais, para ficar por aqui nos exemplos, são defendidos com rigor quando alguém sem permissão invade estes territórios, como se invadissem nosso próprio eu. Outros  chegam as raias do suicídio quando uma paixão vai embora, como se o próprio eu fosse junto. O apego a objetos ou pessoas dão uma boa esticada ao nosso eu, há aqueles que tem um 'euzão' com tantas coisas a administrar que uma velha anedota explica bem o caso, lembrando que, piadas são também um reflexo da angústia do ser humano, rimos daquilo que temos dificuldade em aceitar ou explicar:

"Acidenta-se um automóvel. O condutor surge das ferragens e geme:
- Meu Mercedes...Meu Mercedes...
Alguém diz:
- Mas, senhor... que importa o carro? Não vê que perdeu um braço?
Olhando o coto sangrento, o homem chora:
- Meu Rolex...Meu Rolex!"



quinta-feira, outubro 4

'Pessoas boas'.


Por Lindomar Freitas de Almeida

O garotinho do vizinho está aprendendo a falar e a tudo que tem quatro patas ele diz: 'au, au'. Ele generaliza, mas, à medida que, se desenvolve vai aprender que nem todo bicho de quatro patas é cachorro. Assimilará as especificações de cada coisa.

Infância, criança, adolescência, juventude, vida adulta e velhice. Mesmo passando por todas estas etapas ele não conseguirá entender todas as especificações, todas as sutilezas e matizes que cada ser carrega - seja bicho, seja gente.

Assim nas duas últimas décadas tenho observado as sutilezas e matizes das 'pessoas boas'. E se não me assusto tanto, talvez, porque já não levanto a bandeira das expectativas diante delas. Quando posso aceno para os desavisados, vai com calma em sua identificação meu rapaz!

Dá em cachos o número de reacionários, eugenistas, fascistas, xenófobos... entre as 'pessoas boas'. Inicialmente tem um sorriso no rosto e acolhimento generoso. Mas, escutem suas idéias e o rumo de sua linha de pensamento, observem bem suas práticas de generosidade amalgamadas com (sutil) diminuição do outro, punições ilegais, vinganças e vez por outra festa. Objetivo: gerar confusão de afetos.

Considerável parcela da população desacostumada que é de qualificação de afetos (baixa cultura da escuta no meio familiar) cai como mosca no mel diante dos 'bondosos'. Pode-se dizer, que como o garotinho filho de meu vizinho que diz au, au para todo bicho de quatro patas, alguns sujeitos acreditam em bondade aos primeiros sinais de generosidade.

Pascal (1623 - 1662) há um bocado de tempo alertou: "não há pior forma de maldade do que aquela feita com gestos de bondade".




segunda-feira, janeiro 23

A criança que chora e treme no adulto


Por Lindomar Freitas de Almeida

Como parte de nosso programa de férias fizemos eu e meu garoto um passeio pelo cotidiano da cidade. Feiras, mercados...e uma oficina mecânica. Caminhando entre muita gente e ele sobre meus ombros, lá de cima disse: vou cantar bem alto! E começou um pot-pourri quase gritando: o sapo não lava o pé...borboletinha tá na cozinha fazendo chocolate... e emendava uma música na outra, para sorriso e encanto de quem passava por nós. Ele carregava na mão um brinquedo de fazer bolas de sabão e, a medida que , caminhávamos o rastro com centenas de bolas enfeitava o caminho para deleite dos adultos de passos apressados e rostos preocupados.

Entramos na oficina de chão escuro, de tanto óleo impregnado, com a cantoria do menino e as bolhas de sabão que de imediato mudou o astral do ambiente. Todos olhavam para figurinha de pessoa com tamanha espontaneidade. O riso surpreso estava garantido entre os funcionários da oficina. Ficamos boa parte da manhã por lá. Ao final da tarde voltei sozinho a oficina e o mecânico um senhor de meia idade, cabelos grisalhos e um volumoso bigode perguntou:
 - Cadê o garotinho? Respondi que ele ficara dormindo em casa.
 Ele então disse:
 - Eu não tive a sorte do seu garotinho - e tremeu a voz - eu não tenho ninguém de minha família perto de mim e nem quero ter. Quando criança por volta dos 4 anos via muito meu pai agredir minha mãe. Eu na idade de seu garoto meu pai chamava-me de manhã para trabalhar com ele e chamava somente uma vez. Caso eu não acordasse me chutava por debaixo da rede e me dava soco no rosto, houve um dia que até desmaiei.
Ele nesse momento mostrou-me seus braços que tremiam e lágrimas que teimavam em rolar em seu rosto.
- Nunca fui criança - reforçou ele.
Naquele dia vi uma criança que chora, geme e treme em um adulto.



domingo, dezembro 25

Da afinidade para o Bem



Por Lindomar Freitas de Almeida

Estes dias estive numa confraternização de Natal e final de ano. Encontrei uma pessoa que nunca vira, até então. Imediato senti empatia por ela, uma mulher creio com seus 60 anos. Brinquei sobre o que percebi em seu jeito bem cuidado de ser. Ela contou-me de seu trabalho voluntário há sete anos naquela instituição responsável por vários adolescentes e crianças. Ao final era ela minha amiga oculta, coincidência.

Fiquei pensando com meus botões sobre certas pessoas que conhecemos. Algumas dão a impressão que já eram conhecidas como se trouxessem um 'sinal da eternidade'. Aí pousa a lógica que acena para realidade e me diz: "o que deixa estas pessoas próxima de você é o nível de bondade que elas carregam em suas práticas e o sonho de um mundo melhor, a afinidade que se aproxima de teus ideais."

Ocorre então como uma faixa de rádio que cai direitinho em sintonia -  a voz fica límpida, o som fica claro. Diferentemente há pessoas que como faixas de rádio fora da sintonia: a chiadeira é total, nada se escuta, nada se entende.

O desejo do bem comum poderia ser uma afinidade entre os humanos, tudo ficaria mais simples e a casa Terra se transformaria num lar ao invés de um condomínio em que uns se escondem dos outros em nome do individualismo, travestido de poderezinhos tolos.

Rato e relações.

Por Lindomar Almeida Renato está desempregado e fica em casa. Jandira sustenta a família nestes meses duros. Renato percebe qu...