segunda-feira, janeiro 23

A criança que chora e treme no adulto


Por Lindomar Freitas de Almeida

Como parte de nosso programa de férias fizemos eu e meu garoto um passeio pelo cotidiano da cidade. Feiras, mercados...e uma oficina mecânica. Caminhando entre muita gente e ele sobre meus ombros, lá de cima disse: vou cantar bem alto! E começou um pot-pourri quase gritando: o sapo não lava o pé...borboletinha tá na cozinha fazendo chocolate... e emendava uma música na outra, para sorriso e encanto de quem passava por nós. Ele carregava na mão um brinquedo de fazer bolas de sabão e, a medida que , caminhávamos o rastro com centenas de bolas enfeitava o caminho para deleite dos adultos de passos apressados e rostos preocupados.

Entramos na oficina de chão escuro, de tanto óleo impregnado, com a cantoria do menino e as bolhas de sabão que de imediato mudou o astral do ambiente. Todos olhavam para figurinha de pessoa com tamanha espontaneidade. O riso surpreso estava garantido entre os funcionários da oficina. Ficamos boa parte da manhã por lá. Ao final da tarde voltei sozinho a oficina e o mecânico um senhor de meia idade, cabelos grisalhos e um volumoso bigode perguntou:
 - Cadê o garotinho? Respondi que ele ficara dormindo em casa.
 Ele então disse:
 - Eu não tive a sorte do seu garotinho - e tremeu a voz - eu não tenho ninguém de minha família perto de mim e nem quero ter. Quando criança por volta dos 4 anos via muito meu pai agredir minha mãe. Eu na idade de seu garoto meu pai chamava-me de manhã para trabalhar com ele e chamava somente uma vez. Caso eu não acordasse me chutava por debaixo da rede e me dava soco no rosto, houve um dia que até desmaiei.
Ele nesse momento mostrou-me seus braços que tremiam e lágrimas que teimavam em rolar em seu rosto.
- Nunca fui criança - reforçou ele.
Naquele dia vi uma criança que chora, geme e treme em um adulto.