terça-feira, agosto 31

Pênis, carros e poderes


Por Lindomar Freitas de Almeida

Em muitas culturas o pênis é símbolo de poder. Em alguns grupos ele é ostentado, motivo de piadas, contos e lendas. Para muitos homens é uma desgraça quando ele não funciona a contento, na hora ‘H’. Na puberdade e até entre adultos quanto maior o penis proporcionalmente o sujeito se sente macho. E parceiras dadas a não muita reflexão certamente sentia-se/sentem-se atraídas por tal objeto de poder e sedução.

Hoje em dia há até quem prometa exercícios para que o epicentro da sexualidade masculina cresça alguns centímetros. E há quem pague caro por isso. Pois bem, é comum quando nos falta respostas para vazios no Ser encontrar-se compensações deste tipo.

Atualmente alguns objetos adquiriram status semelhante ao do pênis. Um se destaca: os carros. Os machos compram carros compridos, grandes e caros. Assim hiperegoicamente sentem-se vistos, apreciados, sedutores, em suma, mais poderosos. Quando andam pelas estradas e avenidas assumem a postura de ‘donos do pedaço’, competem, ameaçam aqueles carrinhos pequenos, velhos ou baratos (nem vou falar dos pedestres e ciclistas). Assumem posturas hostis e sem gentileza urbana, próprio dos homens das cavernas que provavelmente eram mais homens por causa do tamanho do ‘pinto’. E o pior sempre encontram parceiras e súditos que assim se deixam seduzir.

E os símbolos fálicos ganham perenidade, travestem-se nos vários automóveis com seus barulhos em caixas de sons sob o porta malas, estuprando ouvidos e violentando o bom senso. Outros bem compridos exibem através do tamanho seu poder, outros partem para o esnobismo e há ainda aqueles que agradecem aos céus pelo dom de ter o tal fetiche, como se Deus fosse dono de concessionária.

E quem não reflete, reproduz como modismo, como um processo da normalidade. O banal se instala e junto a tristeza do comum, da normose coletiva. A cada dia ficamos mais incapazes de desbanalizar o banal.



terça-feira, agosto 10

Presentes e a Gratuidade



Por Lindomar Freitas de Almeida

Raro quando recebemos livre de apegos um presente de alguém. Geralmente presentes estão investidos de algum interesse. Dá-se algo, mas, fica o desejo de ver o presenteado com o mimo.

Certa vez conheci uma senhora que “doou” um anel para um amigo, mas, quando não o via com anel ficava triste e algumas vezes perguntava pela doação. Outro dia ouviu dele que perdeu o presente. Pronto foi o suficiente para o afastamento e as relações definitivamente cortadas.

Conheci o Sr. João que ganhara uma quantia em dinheiro para comprar tijolos para sua casa, mas, ele acabou por usar uma parte para financiar uma TV, o que deixou o doador enraivecido: ‘pobres diabos, ajudamos e vejam o que fazem!!’

Uma idosa ‘doou’ um vaso com uma planta rara para o Felipe. Todavia, três vezes por semana passava por sua casa para visitar ‘nossa planta’. Como a visita incomodava repassou o 'presente' para outra pessoa.

O padre ao visitar as casas no interior recebe uma galinha de ‘presente’, um porco, etc.,. Certo tempo depois: 'Seu padre tenho em casa um menino pra batizar...'

Presentes em muitos casos funcionam como coleiras, correntes, prisões, interesses..., em maior ou menor grau. Não deixam de apresentarem-se como resquícios de uma tentativa infantil de relacionar-se.

Certamente há os casos de presentes doados com um grande nível de desapego, sem interesses embutidos. Estes são atos de GRATUIDADE. Acho até que os pais desde cedo devem ajudar aos filhos a exercitarem este valor, mais, tarde será de grande relevância nas relações com os outros. Dar sem esperar qualquer forma de lucro, exceto, a serenidade que fica em si mesmo.

Penso que hoje necessitamos demais de homens e mulheres livres, porque generosos na GRATUIDADE. Assim sendo, as relações seriam menos de dependência e mais de “infinita responsabilidade pelo Outro”, no dizer de Levinas.