quinta-feira, novembro 12

A saga de Joana entre Macunaímas corporativos e o marketing do parecer ser


Por Lindomar Freitas de Almeida

Joana está há quatro anos tentando transferir-se para outra cidade. A família está lá, tudo seu está lá onde concorre a vaga. Desta vez o melhor currículo era o dela, o melhor cabedal de experiência era o seu. Sem chances curriculares e de experiência para os outros candidatos.

Caso o bom senso ainda existisse naquela organização não haveria dúvidas: Joana realizaria o sonho de morar em sua casa própria e viver com as filhas, marido e família.

Todo o dia Joana olhava o sistema de informação desta antiga instituição federal brasileira. E lá estava ela e seus pares concorrendo, ela em primeiro lugar. Um brilho nos olhos de toda sua família, inclusive das duas filhas pequenas eram transparentes. Afinal desta vez a família estaria unida na casa que construíram, mas que ainda não era um lar completo.

Estes dias ela olhou no sistema e percebeu um novo candidato com apenas um ano na instituição concorrendo à vaga. Joana mesmo jovem já tinha mais de uma dezena de anos de experiência em várias funções. O novo candidato pelo que se via seria o último a ser escolhido.

Curiosa verificou no sistema de onde vinha este jovem candidato com tão pouca experiência, detalhe: do local anterior de onde trabalhava a atual gerente-selecionadora. Ela então pressagiou ao telefone para sua família, até então alegre e na torcida: “o jovem inexperiente será o escolhido”.

Dito e feito: lá estava no dia seguinte o nome do jovem inexperiente na centenária instituição federal brasileira, na vaga que não seria sua por merecimento.

Na verdade, Joana não fez nenhum vaticínio negativo, pois, é corriqueiro que viver neste país é se avizinhar com certos tipos de desonestidades e injustiças, assim como é certo que os espertos tentarão fingir que estavam à sua frente para tomar a vez na fila ou que algum político ou juiz colocou junto a si parente sem concurso público para receber salário à custa dos impostos dos trouxas.

Experiência, currículo e muito menos ética e caráter são levados em conta. E nestes tempos insensatos nem a lamparina da consciência se acende, nem o pudor se aclara. A praga do fisiologismo corporativista, prática conhecida também desde a fundação deste país como ‘peixada’ foi mais uma vez o norte, a baliza, o referencial.

Neste instante este caso real, se repete como clone em série entre tantas organizações onde a praga da desonestidade, da falta de pudor, da ética, da consciência comprometida, está instalada até a tampa do néo-cortex cerebral.

Vendam-se os olhos da lucidez e deixa-se solto o cinismo despudorado.

Clãs corporativos se formam em organizações públicas carregando o obscurantismo semelhante às sociedades secretas medievais, a diferença é que estas práticas não são tão secretas com a tecnologia dos sistemas de informação atuais. O que há é medo de ser perseguido e jamais crescer profissionalmente dentro da organização caso se aponte estas práticas como amorais e ilegais.

Perdura a lei da mordaça e o comportamento tribal, imperioso que divide os semelhantes entre inferiores e superiores tendo o critério espúrio do jogo de intimidades. E a quem tentar contradizer tal bandalheira os discípulos do rei vociferam: “por que não te calas!”

Grupinhos herméticos fazem escola e a cada ‘peixada’ produzem aspirantes que então festejam suas tolas orgias regadas a gargalhadas e abraços festivos. E viva a mais pura sacanagem e viva o cinismo brasileiro!!!

E antes que me perguntem sobre a Joana, bom, a Joana é o outro lado do brasileiro, o avesso do Macunaíma. Ela irá persistir na honestidade, na competência e na idoneidade ética. Continuará tentando dentro dos parâmetros legais divulgados pela organização como o único caminho para se conseguir transferências para outra cidade, mas, todos sabem que isto é um blefe organizacional, uma mera peça do estilo marketing do parecer ser.

Joana diferente da organização a qual pertence não parece ser. Ela continuará na organização fazendo o melhor, superando a média esperada. Ouvirá elogios sobre sua competência e ética, mas, ela mesma já sabe que isto não tem efeitos práticos naquela organização. Mas, jamais se converterá num Macunaíma corporativo. Continuará crendo que um dia viverá com sua família e fará de sua casa um lar.

Não sei se ela sabe, mas, ela é discípula-fiha de Jesus, de Tagore, de Luther King, de Mandela, de Paulo Freire, de Albert Schweitzer, de Gandhi, de Tolstoi...

E eu me recarrego de energias boas sabendo ainda da existência de almas nobres como a da Joana.