terça-feira, janeiro 15

Encapsulamentos do Self


Por Lindomar Freitas de Almeida

Anos passaram-se de uma visita a uma casa esquisita. Na porta de entrada havia uma fotografia de uma boca aberta desnudando os dentes. Adentrando a sala, mais fotos, próteses sobre a mesa enfeitando a moradia e, à medida que, a conversa desenvolvia-se dentes, cáries, céu somente o da boca. Tentava-se mudar o assunto, porém, lá estava o universo oral tomando a cena. Lembro outra visita a um idoso europeu, em cadeira de rodas, sobrevivente das duas grandes guerras. O assunto dominante: bombas, armas, fome e banhos com meio litro d’água. Tentativas feitas para mudar o tema da conversa em vão. Outras visitas por aí poderia citar, mas, o objetivo aqui é ilustrar as fixações humanas, o encapsulamento do self.

Algumas situações fortes aprisionam o self naquele instante passado ficando difícil experimentar num grau prazeroso o presente. Outras vezes não há um evento forte, mas, um fazer repetitivo cristalizador. É comum encontrarmos pessoas que vivem em alguma instituição ou trabalham nelas com um repertório vocabular limitado àquela particularidade. Então há pessoas que restringem sua cosmovisão a motores, outros a doenças, outros a moda, plástica, futebol, investimento, leis...e por aí vai. Ora como se pode viver especificando-se, especializando-se, fragmentando-se de uma totalidade ao nosso redor que convida a percepção de suas nuances e matizes?

Alguns se recusam a aprender além de suas especialidades a mergulhar na novidade alvissareira que renova o self. Talvez porque experiências sempre mudam a gente, exigem esforço e desconstroem um tanto daquilo que éramos reconstruindo-nos de um novo jeito. O mergulho na experiência não pode especificar. EX= sair, fora. PERI= todos os lados. ÊNCIA: conhecer. Sair de mim para conhecer todos os lados não é especificar, estreitar.

Logo, um mundo de especialistas pode ser também um mundo de gente limitada, de visões míopes. Pessoas com um conhecimento técnico, mas, que não sabem viver. Há um vácuo abissal entre o conhecimento técnico sistematizado e a sabedoria de viver.

Veremos a cada dia mais selfs encapsulados, fixações e reducionismos nos dias que ainda virão. Cosmovisões baseadas em fundamentalismos científicos, institucionais, religiosos.

De outra maneira, a crise levará muitos ao despertar dos sentidos, a consciência dos atravessamentos que a todo instante nos perpassam, as dimensões de nosso ser, a tecedura de nossas complexidades humanas e a busca por espaços de dialogicidade e de encontro. A paradoxalidade da vida aponta muitas vias: uma delas é a da esperança.