quarta-feira, outubro 3

Natal, Vida, Amor – Renascimento!

por Lindomar F de Almeida

No Natal a vida pulsa e fertiliza as coisas: o pinheiro resistente ao frio simboliza a firmeza, a perseverança; as bolas cada ato de bondade que fazemos, cada virtude nossa – amor, alegria, partilha, caridade...Os arranjos da árvore são algumas de nossas fraquezas durante o ano. Papai Noel este sujeito bondoso é uma alusão a São Nicolau – São Nicolau foi um homem benevolente que presenteava os necessitados às escondidas. Os presentes são um belo ato de doação que no Natal deve ganhar um sentido maior. O Natal é rico em simbologia, rico em “magia” e em significados, as coisas se sacramentam. Nesse tempo, renasce em muitas pessoas o espírito da bondade, da caridade, da partilha, da COMUM-UNIÃO. Renasce externando o amor fraterno que mora em cada um de nós quando damo-nos as mãos: solidarizando-se ainda mais com o esposo, com a esposa, com os filhos, com os pais, com os amigos, com os necessitados... A mentalidade de que somos parte de uma família humana deve renascer neste dia.Natal é aniversário do maior presente doado a humanidade: o AMOR, o AMOR que se fez humano!Ao darmos um presente lembramos Deus ao nos dar seu filho, relembramos a doação integral de Cristo: com a ternura e fragilidade de um menino numa manjedoura ao escândalo da cruz doou-se, fazendo brotar o AMOR.
Deus assim experimenta viver entre nós, revela-se, mostra sua identidade. Desmistifica então aquela imagem de um Deus Juiz, Severo, Policial... Sua face revelou-se no Cristo que às adúlteras não apedrejava, mas falava de perdão e de vida, aos poderosos não bajulava e aos miseráveis não desdenhava, mas vivia no meio deles!A esperança primeira do Natal é que compreendamos nesta noite que precisamos nascer de novo, hoje e todos os dias. Nascemos de novo quando perdoamos quem nos ofendeu, quando defendemos os mais fracos, quando damos comida ao faminto, quando acordamos sereno e tranqüilo pela manhã; quando vamos com alegria ao trabalho, quando ouvimos com atenção ao outro, quando aproximamo-nos mais de Deus pela oração, quando não tememos a ninguém, quando abrimos nossos corações a esperança lembrando que Deus ama seus filhos e pede que seus filhos se amem também.Espera-se do Natal que somente a paz reine! Espera-se do Natal um renascimento em nós mesmos e em Deus. Renascimento, porque Cristo não foi, Ele é e será sempre viva realidade na alma, no coração e na vida de todos.

Eis o sentido do Natal, nascimento de Cristo e o nosso compromisso pessoal de renascer para a vida aproximando-nos mais do Nazareno – que é aproximarmo-nos da beatitude, da caridade, da justiça, da compreensão... No Natal vamos abrir os nossos corações para a PAZ! Mostrar no rosto um largo sorriso, abrir os braços para um abraço, encurtar distâncias... Espantar o medo, as trevas, deixar o amor entrar em nossas vidas, solidarizar-nos com os que nada tem. Neste dia o mundo todo celebra, o espírito humano eleva-se. Fazendo parte desta grande família humana abriremos nossos corações a Paz. NASCEU O AMOR, NASCEU JESUS! Feliz Natal! Feliz Renascimento!

Nota sobre relações e ventos fortes

Por Lindomar F de Almeida

Quando se convive, tendo um objetivo comum, corre-se o risco de buscar a harmonia grupal e se olvidar do conflito. O grupo em nascimento geralmente produz relações meticulosas, formais entre os membros. Há um certo receio misturado com cuidados no estar com o outro.Uma ilusão pode se estabelecer quando se idealiza o grupo por este começo. Doloroso também é quando se usa muito investimento, muita energia psíquica para manter uma estrutura que naturalmente irá revelar-se em suas matizes e individualidades.Como numa busca romântica pela harmonia há membros que esquivam-se do debate. Alguns podem se tornar 'sentimentalóides', melindrosamente frágeis. Confundem o debate como desrespeito. Debate = idéias, argumentos. Desrespeito = atingir a moral, a pessoalidade. Assim quando um debate é iniciado uma mudez é produzida, um esquivamento apartador passa a existir.Muitos descobrem o incomôdo de não saber dizer 'não', tampouco recebê-lo, interpretam as negativas como ruptura, desamor, etc. E isto vale desde as relações afetivas a dois as relações grupais.Desta forma, comportamentos infantis, adolescentices e regressões vão coexistindo nas relações de hoje. Obviamente, estas mesmas relações desconstroem-se quando os primeiros ventos teimam em soprar

Constatações


Por Lindomar F de Almeida
Lições deste período eleitoral:Percebi em alguns opinadores de plantão da imprensa nacional, alguns políticos, alguns religiosos, alguns cristãos defensores da fé e até pessoas conhecidas uma espécie de chip entranhado: o preconceito, o etnocentrismo e uma visão higienista de limpeza e desvalor aos empobrecidos deste país. Alguns conscientes do que diziam, outros, cooptados por esta visão sem ainda se perceberem (oxalá percebam a tempo!).
Como isto dá engulho! Pessoas sendo medidas por pertencimento a classes sociais.Visões estreitas e miópes da vida referendadas por uma mídia cínica que sabe muito bem usar a técnica da ambiguidade como forma de emprenhar mentes e almas.Pessoas acostumadas a certo conforto material, mas, abobalhadas e com a consistência argumentativa do lugar-comum, dos clichês. Tendo os chavões dos piores jornais de TV como referencial em boa parte das idéias.

Constatação 01: Já há reflexo noutros grupos de idade de brasileiras e brasileiros em relação aquela pesquisa divulgada de que as crianças deste país são as que mais vêem TV no mundo, 5 horas em média por dia.

Constação 02: Cada dia vai se conhecendo o preconceito velado e apartador no Brasil. Resquício da colonização escravocrata da Casa-Grande & senzala e, em tempos favoráveis a debates, como este, as idéias latentes se escancaram.

Constatação 03: Urge-se criar redes de pensamento, de criatividade, de grupos comunitários para se trabalhar visões de homem/ mulher com paradigmas de alteridade, de encontros dialógicos e de cuidado com a vida sob todas as suas formas.

Amor este tão cantado amor...

Por Lindomar F de Almeida

Olhando bem o amor tão cantado pelos intérpretes não se trata de amor e a maioria dos versos poéticos não se fala dele. Muitas vezes se fala de um sentimento possessivo, beirando ao doentio. Outras vezes é de tesão que se fala, atração física e/ou sexual. Grande parte confunde-o com a paixão. Neste sentido há muita gente especialista neste tal "amor"... Prosseguindo assim pode ser que se passe pela vida e nunca o experimente. O amor não é abstrato e a paixão concreta, como se costuma pensar. O amor tampouco é cego, ao contrário é lúcido. Na verdade amor nem mesmo é sentimento. Paixão, tesão, atração sexual estes sim estão no 'reino' das emoções/sentimentos.O amor está no 'reino' das virtudes. Pode até ter como coadjutores as emoções e os sentimentos, vários deles, mas, sentimento ele não é. Veja bem, as emoções não precisam de esforço para existirem, sozinhas elas surgem e esquentam o coração de fogo, às vezes um olhar é suficiente. Já o AMOR só acontece se a pessoa fizer esforço, esforço contínuo, diário... portanto uma virtude(virtuos=esforço). O amor acontece quando saímos de nós mesmos, num processo empático, trancende o eu. Portanto, tem muito pouco de egoísmo. A paixão ocorre dentro egocentricamente, o outro não é bem um outro, mas, narcisicamente um espelho de si mesmo. Queremos amar verdadeiramente? Aprendamos a cuidar desapegadamente. O cuidado é a expressão concreta do amor!

Gentileza gera gentileza

Por Lindomar F de Almeida

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu José Datrino, o Profeta Gentileza. Ele saudava as pessoas nas ruas do Rio de Janeiro e escrevia nas colunas dos viadutos para todo mundo ler: "um mundo de paz nascerá através da gentileza entre as pessoas". Como faz falta em nosso dias o seu ressoar por um mundo mais gentil. Acrescentava: sou “amansador dos burros homens da cidade que não tem esclarecimento”.Quem vive em cidades grandes sofre com a falta de gentileza: seja no trânsito embrutecido, na violência barbarizada dos folhetins diários, naquelas violências sutís que se apresentam em filas de supermercado(quando não se dá a vez para quem tem poucas compras a passar no caixa), quando se agride atendentes, não se dá a cadeira no ônibus para alguém mais necessitado, quando o som é aumentado enlouquecidamente certos que é 'a maior curtição', quando se faz birra feito crianças não cedendo. Corações envenenados com estresses, relações mal resolvidas e/ou coleções de relações sem confiança e superficiais acumuladas no decorrer da vida.Hoje mesmo vi uma descortesia de um homem idoso acompanhado de sua esposa, os dois num automóvel novo, fecharam um outro não deixando-o atravessar a rua - virando o rosto como se fechasse as portas da consciência. Anestesiados na vida da cidade não sentem a falta de gentileza.Para compensar a rudeza daquela cena dei uma chance a sensibilidade, cedi minha vez para uma senhora numa fila. Ela olhando-me sorrindo disse: obrigado pela gentileza. Pensei no axioma do simpático Profeta: "gentileza gera gentileza".

Tênues proteções

Por Lindomar Almeida

A vida cotidiana com seus afazeres repetitivos cria uma padronização, um ritmo mental que apega a pessoa a tênues proteções. Desconectam-se de si mesmas sem dar-se conta do padrão rígido seguido. Com o tempo se vêem por aquilo que fazem. O mesmo tempo mostrará dolorosamente que não são somente o seu fazer. Há um ser a cuidar. Não somos simplesmente nossa profissão, nosso cargo, o estatus que ocupamos, a farda, a roupa que nos identifica. Tampouco somos apenas as letrinhas antes de nosso nome (Dr, Pr , Pe, Msc, Prof...). Precisamos das instituições, assim como ela de nós. Há uma dialética relacional entre o indíviduo e a instituição, entre o ser e o fazer. Um tanto lá e um pouco cá. Abrigar-se absolutamente nas cristalizações proporcionadas pelo fazer repetitivo pode ser cômodo e a princípio trazer bem-estar. É certo também que virá a falta de significado e incertezas quanto ao seu estar no mundo. O fazer deve nos apontar ao ser e vice-versa, numa negociação constante. Um barco não vive só no porto, um barco não vive só no mar.

Eugenismo velado

Por Lindomar Almeida

De vez em quando algum figurão representante de boa parte da elite reacionária brasileira, empolgado, solta um velado desejo da volta a eugenia. Para refrescar a memória dos esquecidos eugenia é aquela absurda teoria desenvolvida por Francis Galton no final do século XIX e primeira metade do século XX, seguida à risca por Hitler e seus comandados, que tem por objeto a espécie humana em termos de purezas raciais (segundo a funesta teoria haveria pessoas puras e impuras, superiores e inferiores. Impuros e inferiores seriam descartados). Nesta semana um grande jornal noticiou que um tal presidente de uma multinacional referindo-se ao 'marasmo cívico' do país disse a infeliz frase em público: "Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". A coisa foi feia. Um desrespeito preconceituoso, para avaliar por baixo, a milhões de pessoas daquele lugar e a todo ser humano que pensa e age por um mundo melhor.

O tal cidadão desconhece o poeta Torquato Neto, precursor do movimento cultural Tropicalista; desconhece a infância do poeta neoparnasiano Humberto de Campos e suas geniais obras literárias, o aconselho a ler o seu 'Memórias'; desconhece os ilustres anôninos do estado, talvez porque não fazem parte das luzes midiáticas; desconhece os 80% de florestas nativas preservadas; desconhece o Delta do Parnaíba, o único das Américas; o sítio arqueológico das 'Setes Cidades'; desconhece o trabalho da paleontóloga Niéde Guidon no sítio da Pedra Furada onde seus achados refutam a tese de que não estão nos EUA os vestígios dos primeiros homens da América, mas, no Piauí onde neste sítio arqueológico as pinturas rupestres são consideradas obras primas da humanidade pela UNESCO; talvez também não se interesse em saber que a melhor escola do Brasil, eleita por dois anos consecutivos pelo ENEM é de lá, do Piauí. Caso o interesse seja a maximização do lucro e não as pessoas talvez se interesse na melhor produtividade de soja, mel e provavelmente numa das maiores bacias de petróleo e gás da Nação.
Desta forma, pessoas atrasadísimas pensam. Outras fazem pior mutilam empregadas domésticas com o argumento abrutalhado de que achavam que era uma profissional do sexo; outros queimam indígenas com o mesmo tosco argumento de que pensavam ser um mendigo. Duplos ultrajes a dignidade humana. Filhos da eugenia velada, nutridos por preconceitos sutís ou escancarados, tendo como fonte determinismos biológicos, hoje já superados pela propria genética e seus novos estudos baseados na análise do DNA mitocondrial.

O grave problema é que determinada classe elitista e muitos que desejam parecer que pertencem a ela, fazem um curso superior e passam a ler revistas semanais como fonte de informação ou escutam âncoras de TV como gurus. Repetem os mesmos clichês, como papagaios amestrados. Assim enquanto a 'Complexidade de Edgar Morin' nos convida a discutir a grandeza da Cidadania Planetária, há a pequenez de verdadeiros brucutus pós-modernos pensando em bairrismos, regiões superiores e purismos biológicos e/ ou culturais.

Dimensões do Ser

Por Lindomar F de Almeida

Não é possível neste engatinhar do século XXI pensarmos o processo de realização humana somente porque se alcançou sucesso em um segmento da vida. Há os que se aquecem com suas glórias porque sabem curtir a vida; outros porque venceram no mundo do trabalho; há ainda os que são craques na arte dos relacionamentos amorosos e por aí vai. O ser humano não deve ser visto somente por uma parte isolada. Os ventos sobre estes tipos de pensamentos já nos trouxeram Jan Smuts, Fritjof Capra, Ludwig von Bertalanffy, Edgar Morin, entre outros, cada um em seu campo de pensamento.

Notadamente uma pessoa que busque sua realização pessoal num aspecto de sua vida terá a sensação inicial de sucesso. Mas, com um pouquinho de tempo verá que há muito por fazer. O cuidado conosco mesmos deve ser constante e a construção do que somos merece uma atenção desperta a toda nossa complexidade. Creio que cinco dimensões valem observar:

1- dimensão do trabalho/ estudo: todos precisamos nos sentir úteis, conseguir bens materiais e imateriais, frutos da dignidade de nossos esforços;

2- dimensão do lazer: todos precisamos de ócio, preguiça, prazer, descompromisso com qualquer meta;

3- dimensão dos afetos: todos precisamos perceber que somos queridos, considerados, amados e precisamos querer, considerar e amar outras pessoas; se não tem alguém ao menos um animalzinho, uma plantinha, por enquanto servem;

4- dimensão social: todos precisamos conviver em grupo, em comunidade; lá compartilhamos, questionamos, somos questionados e mudamos;

5- dimensão do transcendente: todos precisamos acreditar em algo maior do que nós mesmos, que transcenda nossa dimensão egóica. Muitos chamam o Inaudito e Inominável de Deus, Olorum, Javé, Alá, Axé...
De outra maneira, não devemos nos fixar em nenhuma dimensão. A segmentação adoece, regride, infantiliza. Por exemplo, congelando-se no lazer (oxidação do ser), no trabalho (automatismos), nos afetos (desequilíbrios emocionais), no social (fragilização da identidade pessoal), no transcendente (fanatismos, fundamentalismos). O convite é vivenciar a circularidade e não a focalização míope. Geralmente quando não estamos bem conosco mesmos há algum exagero em alguma dimensão ou deixamos de vivenciar algumas.